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Crônica do Dia – A vida que nos trai

Fazia uns dez anos que eu queria visitar o velho, mas não fui.

Whisner Fraga
Whisner Fraga

O velho morreu num domingo.

Trabalhou segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e era ainda madrugada quando o levaram ao hospital.

O carro parou em todos os sinais, que, mesmo tarde, ainda se alternavam entre o verde, o amarelo e o vermelho.

Vermelho como o sangue que trairia o velho, mais tarde.

Eu poderia chamar esse velho de “meu pai”. Acho que chamei algumas vezes.

O médico recebeu, reverente, o senhor de sandálias, que todos consideravam justo.

Todos consideravam-no justo e ele era, de fato.

Tão justo que morreu em um domingo, pois precisava trabalhar no sábado. Os clientes queriam seus conselhos e ele não os decepcionaria.
O velho era gentil e, por isso, a cidade ficou triste.

Fazia uns dez anos que eu queria visitar o velho, mas não fui.

O velho podia não se lembrar de mim quando eu dissesse que passava boa parte do dia sentado naquele banco de esquina, ou que eu não jogava mais bola, ou que ainda era muito amigo dos meus irmãos ou que não se tratava de mim, mas dele.

O velho morreu num domingo.

Podia ter sido sábado ou sexta ou quinta ou quarta, que não faria diferença: eu me sentiria triste, do mesmo jeito.

1 comentário
  1. Julieta dib Diz

    Que maravilha de saudade, estamos de portas braços abertos, nos visite, será um prazer reve-lo. Essa ausência dele doi, mas vai virar saudades e ótimas lembranças !!!

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