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Coluna do Dia – Amizade. Ah! Essa tal de Amizade. – Por Paulo Nailson

"A Amizade é desnecessária, como a filosofia, como a arte, como o próprio universo… Ela não tem valor de sobrevivência; antes, é uma daquelas coisas que dão valor à sobrevivência.” C.S. Lewis

Paulo Nailson de Almeida Lima
Paulo Nailson de Almeida Lima

A cada final de ano, especialmente nessa semana, entre as principais ideias que se passam em minha mente, lembro e tenho a grata surpresa de reencontrar amigos e amigas que foram surgindo a longo de minha existência, seja na escola, igreja, trabalho, lazer, etc (é, acontece fora do combinado mesmo). Entre estes vários deixaram marcas para sempre. “Os homens que possuem amigos fiéis são menos fáceis de manejar ou alcançar; mais difíceis de corrigir por parte das boas autoridades e de corromper por parte das más. Assim sendo, se nossos senhores, pela força ou propaganda a respeito da Proximidade ou por tornarem impossível, de maneira sutil, a privacidade ou o lazer não planejado, vierem a ter êxito em produzir um mundo em que todos são Companheiros e ninguém é Amigo, terão removido alguns perigos, e terão também tirado de nós aquilo que é quase nossa mais forte proteção contra a servidão absoluta.” (C.S. Lewis)

Poucos valorizam à amizade porque poucos realmente a experimentam. Numa sociedade cada dia mais individualista, a gente conseguiria existir sem nunca fazer amigos?

No livro “Os Quatro Amores” (1960), C. S. Lewis analisa as diferenças entre as quatro principais categorias dos laços íntimos humanos — afeição, a mais básica e expressiva; Eros, o desejo apaixonado e às vezes destrutivo de amantes; caridade, a conexão espiritual mais alta e mais altruísta; e amizade, a relação mais rara, menos ciumenta e mais profunda.

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Lewis identifica o início de uma amizade quando surge a frase “O que? Você também?! Pensei que eu fosse o único!”. Amantes podem olhar-se frente a frente, absorvidos em si próprio, amigos sentam lado a lado, absorvidos em um interesse comum.

Lewis diferencia um grupo de amigos e uma coletividade: “apenas entre amigos os homens se relacionam em seu nível mais alto de individualidade (e não individualismo). Cada um revelando um aspecto único da imagem de Deus. É sua personalidade ali, se expressando e se desenvolvendo em uma troca real com o outro. Você pode ser verdadeiramente o que é, ninguém está preocupado com seu estado civil, ou com que profissão você tem.”

Mas amigos podem se gostar tanto ao ponto de também despertar um desejo erótico um pelo outro? Lewis arremata: “Sou uma criatura que põe a segurança em primeiro lugar. De todos os argumentos contra o amor, nenhum seduz tão fortemente minha natureza quanto esse: “Cuidado! Isso pode fazê-lo sofrer!”

Outra questão no mesmo ponto é quando nos encantamos com um amigo/amiga e o amor Eros é desenvolvido, nos tornando um casal e acontece de nosso par identificar-se com nossos amigos é uma bênção a mais (não é sempre que acontece isso). “Nada enriquece mais o amor erótico do que a descoberta de que o ente amado pode entrar numa amizade profunda, verdadeira e espontânea com os amigos que já possuíamos: sentir que nós dois não estamos apenas unidos pelo amor erótico, mas que nós três, ou quatro, ou cinco, somos viajantes em busca da mesma coisa, tendo todos a mesma visão.” (Lewis)

Para Lewis, se desnudamos o corpo em Eros; na Amizade, desnudamos a personalidade. e ainda, Amigos se preocupam uns com os outros mas não nos enchem de questionamentos e cobranças: “A amizade, diferentemente de Eros, não é inquisitiva.”

Mas, se AMIZADE é algo tão sublime qual o motivo de muitos não conseguirem? Lewis responde: “A primeira e óbvia resposta é que poucos lhe dão valor, porque são raros os que a experimentam.” … “Para os antigos, a Amizade parecia o mais feliz e humano de todos os amores. A coroa da vida e a escola da virtude. O mundo moderno, em comparação, a ignora. Admitimos naturalmente que além da esposa e da família o homem precisa de alguns “amigos”.

Vinicius de Moraes foi um poeta rodeado de amigos. Em um de seus textos expressa de forma poética essa linha de raciocínio de Lewis: “A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.”

A amizade se manifesta no socorro, assim tanto quanto busquei ajudar amigos, tantas e quantas vezes não fui socorrido por eles? Na necessidade, na enfermidade, na angústia, etc. Mas Lewis ressalta que: “A marca da verdadeira amizade não é o fato de ser prestada ajuda na hora certa (pois naturalmente fará isso), mas, depois de feito isso, tudo é prontamente esquecido.”

Enfim, o autor nesse capítulo do livro citado ainda divaga detalhadamente sobre muitas outras questões relativas a amizade no campo filosófico e religioso, o espaço dessa coluna (já extensa hoje) não é próprio para isso. Mas pretendo finalizar refletindo com vocês sobre um aspecto da Amizade que é um pouco delicado quando se torna objeto de alienação do mundo externo, ou seja, quando ensimesmados os amigos caem num isolamento. Lewis adverte “como é estreito o seu caminho: ela não deve transformar-se no que o povo chama de “sociedade de admiração mútua”; todavia, se não estiver cheia desse sentimento de admiração, de amor apreciativo, não será então amizade.”

Essa é a nossa última coluna deste ano. Devo voltar, se assim o Senhor permitir e, claro, se o nobre Gil a manter, no próximo ano. Ao desejar boas festas, rogo a Deus misericórdia sobre minha vida, pois embora eu tenha os/as melhores amigos que se possa ter não consigo retribuir na mesma dimensão todo carinho e cuidado que recebo.

Oxalá que em 2020 e nos próximos anos vivamos a AMIZADE como instrumento através do qual Jesus se revele e expresse a cada um as qualidades de todos os demais.

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1 comentário
  1. Joanatan Richard Diz

    Muito legal, caro Paulo! Deus abençoe e conduza.

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