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Crônica do Dia – 2020 em cinco partes (Parte Três) – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella

Eu vinha contando sobre algumas descobertas que fiz em 2020. Em síntese, percebi que viver ansiosamente pensando no que virá nos aprisiona e que viver como se o passado fosse a única alternativa para os problemas do presente nos mata.

A ideia de que podemos viver no passado é um grande engodo criado por cérebros ensandecidos, obcecados pelo controle. O fato é que, se futuro não existe, o passado também não. Quando uma coisa está no passado, ela já não é uma coisa, ela não existe mais como coisa e sabemos dela porque lembramos dela dessa forma.

Dessa forma. Mas meu vizinho pode lembrar de outra forma. Essa charada deu um nó na minha cabeça e isso me leva a pensar que as coisas existem apenas como eu me lembro e, a maneira como eu me lembro existe apenas na minha cabeça.

2020 em cinco partes Parte Três
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O que sobra então?

Aqui esse lance de tempo fica meio complexo. Porque, se não existe passado, como existe progresso? Não é o sabemos sobre o passado que nos impulsiona para a frente? Em partes, porque o que fica, de fato, não é o momento passado, mas aquilo que o homem produziu. Isso continua no presente.

Por exemplo, se eu tiver sorte, daqui há dez anos alguém pode ler esse texto e pensar: “Puxa, ela escreveu na pandemia de 2020!” Mas olha, esse alguém lerá esse texto no meu futuro, mas o meu futuro será o presente dele. E meu texto ainda estará lá. No presente daquele alguém.

Então, o presente, esse instante, o aqui e agora, é o que sobra. Na verdade é a única coisa que existe, tão fugaz e tão eterno. Ele é esse espaço onde alcança minha consciência. E ele pode ser tão vasto quanto minha consciência das coisas se permite ser, tão amplo quanto a infinitude das coisas que minha consciência me permite encarar.

Encarar significa olhar nos olhos, analisar atenciosamente, examinar, entrar em contato com alguém de modo inesperado, confrontar algo ou alguém, capacidade para resolver quaisquer problemas e situações desagradáveis.

Então, é basicamente isso. Para ter um presente, eu preciso olhar o passado. E então examinar, minuciosamente, sem pretensão, o que ficou dele em mim – no caso, as lembranças. A parte mais difícil vem agora, que é exatamente entrar em contato com aquelas coisas que geralmente são empurradas para debaixo do tapete, são negadas ou ignoradas. E desse contato nasce a necessidade de confrontar, aberta e sinceramente, nossa própria natureza, nossos próprios pensamentos, para daí, então, resolver os problemas que surgem e podermos avançar.

E isso me leva ao ponto central dessa crônica de hoje. ENCARAR O PASSADO NOS DÁ POSSIBILIDADE DE UM PRESENTE. E essa possibilidade só se torna uma certeza quando nos reconciliarmos com aquelas lembranças/coisas para as quais geralmente negamos direcionar nosso olhar.

Mas dessa reconciliação eu tratarei na próxima semana.

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Sobre a autora :

Nádia Coldebella é paranaense de espírito, corpo e coração. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já fez um pouco de tudo dentro da área de Psicologia: atuou como psicóloga clínica, professora universitária, psicóloga organizacional e palestrante. Atualmente, é servidora pública, atuando como psicóloga judiciária. Escreve, desenha e pinta desde a infância e é na arte que reside sua alegria. Gosta de escrever sobre a vida, os dramas e os conflitos dos corações humanos. Também gosta de um pouco de sarcasmo em suas histórias. É mulher trabalhadora, esposa e mãe e como outras tantas nesse mundo, sonha em construir um mundo melhor, mais equilibrado e sensato, um lugar em que suas filhas possam sentir-se livres para ser aquilo que vieram ser.

 

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