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Crônica do Dia – 2020 em cinco partes (Quarta parte) – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella

Descobri em 2020 que o futuro nos aprisiona e o passado nos mata. E que, se temos alguma possibilidade de viver um presente, precisamos encarar o passado e nos reconciliar com as dores que marcam nossa existência.

Isso tem um nome. Se chama perdão.

O perdão tem a propriedade mágica de libertar a pessoa ferida do peso da mágoa e, desta forma, pode libertá-la das teias do passado. Pode trazê-la para o presente.

Então vamos dizer tchau para a mágoa. Tchau, mágoa.

E quando ela vai embora, o que fica no lugar?

A mágoa ocupa um espaço que, sem ela, estaria vazio e o vazio parece ser mais difícil de suportar do que a dor. Quer dizer, enquanto algo ainda está lá, naquele lugar, mesmo sendo ruim, ainda ocupa um espaço e você sabe o que fazer com aquilo. Você sabe. Está acostumado. E isso acaba fazendo parte de você, se confundindo com quem você é. Mas, e o vazio? E quando aquilo sai e fica um vazio? O que você faz? E quem é você, já que uma das coisas que você carrega e que te define não existe mais?
O que fica no lugar do vazio? Antes da mágoa estar lá, o que tinha lá? Vazio é vazio, mesmo cheio, vazio é um buraco que era cheio de passado.

Melhor não colocar nada lá. Daí você não fica preso nas teias.

A sabedoria é perdoar. Mas, mais inteligente que perdoar a dor do passado, é perdoar alguma coisa enquanto ela acontece. Não depois. Daí você não fica preso nas teias.
Perdoar alguma coisa enquanto ela acontece é uma decisão que a gente toma na hora da crise, depois de decidir se vai alimentar uma mágoa e se enrolar nas teias ou se vai encarar o vazio dentro da gente.

Talvez a gente queira um buraco cheio de passado. Porque vazio é vazio, mesmo cheio.

Esses paradoxos cheio de vazios chegam nos momentos de angústia, quando a gente fica mais sozinho. Ficar sozinho é uma coisa muito complicada, porque a gente fica vazio.

Porque no vazio você precisa das pessoas e esse é o momento em que elas se afastam de você, no momento da dor mais pungente, da necessidade mais extrema, do vazio mais doloroso. São poucas as pessoas que tem disponibilidade de lidar com os vazios e estender uma mão. As outras muitas tem um julgamento, uma sentença, um modo de fazer ao qual, na opinião delas, você deveria aderir.

Não importa quem você seja, quanto dinheiro você tenha, quão popular você é ou o que você faça. Tudo o que importa é que alguém lhe estenda a mão ou te faça companhia no vazio. Mas na maior e pior parte das vezes, não tem ninguém lá.

E se realmente você não quer ficar preso nas teias do passado, você precisa estar disposto a perdoar. E a encarar todos esses sentimentos de raiva, mágoa, angústia que precedem e procedem o vazio. E que também estão no vazio.

Por que o perdão não serve para outra pessoa. Essa pessoa será seu próprio réu e algoz, encarará seus próprios julgamentos, sentenças e modo de fazer. O perdão serve para você, ele serve para soltar as suas amarras, para te tirar da gaiola, escancarar as janelas e portas da sua casa, deixar o sol entrar nos vazios mais escondidos do seu coração. Mas quem quer ter janelas escancaradas e portas abertas? Quem quer sair do conforto da prisão?

O que eu faço com isso?

Créditos da Imagem: Catrin Welz-Stein. Em https://www.artgalaxie.com/artists/details?id=57&artist_name=catrin-welz-stein
Créditos da Imagem: Catrin Welz-Stein. Em https://www.artgalaxie.com/artists/details?id=57&artist_name=catrin-welz-stein

Na verdade, PERDOAR EXPÕE O VAZIO, MAS PERMITE QUE O PRESENTE SEJA CRIADO.

Perdoar permite que você se jogue de cabeça no presente e conheça o que está nas profundezas de si mesmos. permite saber o que há atrás do vazio aparente. Permite que você seja definido pelos seus próprios termos e não pelos termos que os outros deixaram naquele espaço vazio cheio de passado.

E quem quer mergulhar fundo? Isso dá medo. Muito medo. Na verdade esse mergulho exige um ato de fé, um ato de confiança.

Tratarei disso na última parte.

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Sobre a autora :

Nádia Coldebella é paranaense de espírito, corpo e coração. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já fez um pouco de tudo dentro da área de Psicologia: atuou como psicóloga clínica, professora universitária, psicóloga organizacional e palestrante. Atualmente, é servidora pública, atuando como psicóloga judiciária. Escreve, desenha e pinta desde a infância e é na arte que reside sua alegria. Gosta de escrever sobre a vida, os dramas e os conflitos dos corações humanos. Também gosta de um pouco de sarcasmo em suas histórias. É mulher trabalhadora, esposa e mãe e como outras tantas nesse mundo, sonha em construir um mundo melhor, mais equilibrado e sensato, um lugar em que suas filhas possam sentir-se livres para ser aquilo que vieram ser.

 

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