Notícias de Caruaru e Região

“Imagina o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente!”

Antonio Magalhães
Antonio Magalhães

Por Antonio Magalhães*

O que é ser nordestino? É uma pergunta de infinitas respostas. Neste dia 8 de outubro dedicado à nossa gente quero alinhar conceitos pessoais sobre o que somos, como vivemos, para onde vamos. Só alguns conceitos, claro.

Com a população de 59 milhões de habitantes – a região só perde em número de pessoas para o Sudeste -, hoje o Nordeste tem de tudo: uma economia diversificada e crescente, produzindo açúcar, algodão, arroz, cacau, frutas irrigadas, soja, minério de ferro e com uma indústria representativa em desenvolvimento.O turismo também está na pauta, por conta das paisagens extraordinárias e uma cultura forte e diversificada.

Porém o Nordeste é mais e mais, com mil definições e visões. Por exemplo, o cidadão San Barros, no site Catraca Livre, diz ter “ orgulho de ser nordestino por sermos um povo sem frescura de segregação com o povo do sul e sudeste. Por sermos tão trabalhadores e guerreiros quanto o povo de qualquer região. Por sermos acolhedores, amigáveis hospitaleiros, bem humorados com todos mesmo sendo rejeitados, hostilizados e vítimas de preconceito”.

E continua Barros: “por termos tanta beleza natural em todos os nossos estados quanto em qualquer outro estado brasileiro. Tenho orgulho do meu Nordeste, do meu Pernambuco, do meu Recife… do meu ôxe, do meu vixe, do meu vôte… do meu cuscuz com leite, da minha macaxeira com charque, do meu bolo de rolo… de mainha, de painho… Dos brebôte, dos buruçu e dos paranauê… Tenho orgulho de ser nordestino!”.

Como se vê, orgulho da sua região é um ponto comum dos nordestinos daqui e de fora, estejam eles no Rio, São Paulo, Brasília ou em qualquer outro ponto do país ou do Exterior. O que nos sobra de simpatia e acolhimento aos de fora, falta na articulação política e econômica.

Uma herança maldita secular colocou o Nordeste como um “curral eleitoral”, onde os votos fechados para determinados campos políticos nos deixou presos a um atraso mental que permite ainda hoje a manipulação eleitoral. Se não vai para um lado, vai para o outro. A melhoria das comunicações e as redes sociais possibilitam mais informações. E com elas podem vir mais enganações mas também reflexões que nos livrem da pecha do voto fechado.

Já o arrastado desenvolvimento econômico tem ainda muito chão pela frente. Mas será possível dentro do contexto federativo atual, onde esmolam por verbas Estados e municípios? Pensando em mudanças mais radicais para a época, início dos anos 2000, o professor de Economia, Mestre e Doutor na área, Jacques Ribemboim, escreveu o livro “O Nordeste Independente” que aponta as nossas dificuldades diante do neocolonialismo interno, a partir do Sudeste.

Diz Ribemboim no seu livro: “O modelo federativo brasileiro e a hegemonia econômica do Sudeste impõem às regiões periféricas uma relação tipicamente neocolonial. Em posição de desvantagem, o Nordeste exporta para o Sudeste matéria-prima e mão-de-obra a preços deprimidos e dele importa o produto acabado a preços altos e protegidos, constituindo um fluxo pernicioso de escoamento líquido de recursos de uma região mais pobre para outra mais rica. As origens do colonialismo-neocolonialismo”

E propõe uma saída: “Alternativa pouco discutida no país é a da independência do Nordeste ou de parte desta região. Uma vez liberto da dependência econômica e decisória dos Estados do sul-sudeste, o Nordeste poderia adquirir produtos de quem bem lhe aprouvesse, sem compromissos em resguardar ou proteger indústrias de fora de seu território”.

A independência do Nordeste em relação ao Brasil é um devaneio de difícil concretização e até mesmo viola uma cláusula pétrea da Constituição Federal. Mas não faltam razões objetivas para se pensar nisso. Portanto, pensar, falar e cantar não é crime. Fiquemos com O Nordeste Independente de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, cantado por Elba Ramalho: ”Já que existe no sul esse conceito/ Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato/ Já que existe a separação de fato/ É preciso torná-la de direito”.

E mais versos: “Quando um dia qualquer isso for feito/Todos dois vão lucrar imensamente/Começando uma vida diferente/De que a gente até hoje tem vivido/Imagina o Brasil ser dividido/E o Nordeste ficar independente”. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.