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20 DE NOVEMBRO – DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO BRASIL: O PAÍS QUE DETÉM O RACISMO MAIS HIPÓCRITA DO MUNDO

Adilson Lira
Adilson Lira

 

*Por: Adilson Lira

 

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.”

(Haile Selassie)**

 

O Brasil do Século XXI ainda não conseguiu sair do Século IXX, quando o assunto é racismo. Em matéria de preconceito racial e todas as demais formas de discriminação, estamos vivendo ainda há séculos do chamado mundo moderno. Na prática, 2020 ainda não chegou para nós quando o assunto é “RACISMO!”

Apesar de sermos uma das nações mais miscigenadas do mundo e contarmos com mais de 50% da população composta por negras e negros, pardas e pardos, ainda não aprendemos a conviver com nossa miscigenação e vivemos no país o racismo mais hipócrita do mundo, onde as pessoas não se declaram racistas, mas praticam o pior e mais rasteiro dos preconceitos raciais do planeta! A cor da pele aqui no Brasil continua sendo fator determinante para se viver ou morrer, se instruir ou manter ignorante, galgar os mais altos e bem remunerados postos do mercado de trabalho ou se manter no chão das fábricas, na limpeza das ruas, na cozinha das madames brancas etc.

O Brasil vem se mantendo, ao longo dos séculos, como uma sociedade absolutamente desigual, a concentração da riqueza nas mãos de alguns e a miséria espalhada para muitos ou quase todos. E nesse cenário desolador, desanimador, a situação das negras e negros é ainda mais cruel, desalentadora, desigual. Dentre a população de baixa renda, a população negra é a mais afetada, os mais baixos salários pagos no país são destinados exatamente à população negra. Entre os mais de 14 milhões de desempregados, a população negra é a maioria.

Os índices da vergonha seguem adiante: São os jovens negros os que mais morrem assassinados; é a população negra que compõe a maioria dentro dos presídios brasileiros. As mulheres negras são a maioria entre as vítimas de violência; o feminicídio afeta mais as mulheres negras do que as brancas; elas (as negras), são as mais violentadas e estupradas; os salários pagos as trabalhadoras negras, são menores do que os que são pagos as mulheres brancas, mesmo exercendo as mesmas funções e com as mesmas qualificações (às vezes até mesmo com qualificações melhores).

Chega a ser tão cruel e excludente a prática do racismo no Brasil que muitas negras e negros preferem não se identificar como tais, principalmente aqueles e aquelas de pele um pouco mais clara e cabelos menos encarapinhados ou pixaim. A população negra sofre tanto com o preconceito racial, com o racismo, hipócrita e dissimulado, praticado no nosso miscigenado país, que muitas e muitos preferem tentar fingir que são o que não são ou que não são o que são! Preferem negar que são negras e negros. Preferem não se autodenominar como tais! Porém, como bem diz um professor, de pele branca, que tenho o prazer e privilégio de ter como amigo: “O racismo é a pior das formas de preconceitos, pois, negras e negros, ainda que quisessem, não poderiam esconder a cor da pele, a raça da qual fazem parte; ainda que quisessem, não poderiam se travestir de outra raça!”

É lógico que reconhecemos haver avanços na luta pela igualdade racial. É lógico que reconhecemos haver avanços na própria luta da população negra pela nossa emancipação ampla, total e irrestrita. Mas, principalmente, é lógico que sabemos ser impossível alcançarmos a nossa total emancipação, nos livrarmos dos grilhões que ainda nos mantêm escravizados, sem que nos organizemos e lutemos.

Enquanto uma negra ou um negro sofrer com preconceito racial em qualquer lugar do Brasil; enquanto não forem denunciados, investigados, julgados e condenados todos os crimes de racismo aqui praticados; enquanto todas e todos, brasileiras e brasileiros, de qualquer raça, de todas as raças, não nos envergonharmos dessa prática criminosa, cruel, rasteira e repugnante, não cessará nossa luta. Não cessará nosso grito. Não cessará nosso protesto!

Apesar dos pesares, se nos perguntarem se há algum motivo para comemorarmos nesse “20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra”, diremos convictos que sim, pois, nunca perderemos a esperança e continuaremos lutando para que no Brasil e no as pessoas não sejam medidas, analisadas, julgadas pela cor da pele. Não perdemos a esperança de vermos no Brasil e no mundo a concretização daquilo que deveria ser óbvio, o ajuntamento e união de todas as raças em uma só: a raça humana!

“Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos

Só pode exaltar.”

(Trecho da Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias

 

Abaixo o racismo! Em defesa da igualdade racial! Contra toda sorte de discriminação e preconceito!

Caruaru-PE, sexta-feira, 20 de novembro de 2020

*Adilson Lira

Advogado e funcionário público estadual

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**Observação: O pensamento de Haile Selassie, “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra”, serviu de inspiração para a canção “War” de Bob Marley.

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