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Agenda médica – Por Sergio Geia

Sergio Geia
Sergio Geia – Escritor

Ando preocupado.

Outro dia examinava arquivos. (Isso é bom. Um bom começo. Arquivos. Em outros tempos diria papéis. Disse arquivos. Muito bom. E direto do meu note. Ah, melhor ainda).

De modo algum isso representa alguma espécie de medo, imagina.

Então abri a agenda médica — Sim! Óbvio que tenho uma, não tens? — e percebi que a pandemia provocou uma hecatombe na rotina de minhas consultas. Cardiologista, urologista, dermatologista, oftalmo, otorrino, dentista, tudo atrasado. Sem contar exames, colonoscopia, que faço com frequência, sangue, esteira, eco, ultrassom, credo.

Cardiologista porque todo cinquentão morre de medo de morrer do coração. Sem contar a hipertensão, que carrego comigo desde os 32. Dermatologista porque verrugas brotam mais que inço. Oftalmo porque tenho a impressão que a cada dia enxergo menos. Urologista. Otorrino pra despachar a cera do ouvido. Dentista porque os dentes não têm mais a força de antes. Aff!

Se já era difícil organizar-me com toda essa multiplicidade de istas a que qualquer ser humano depois de certa idade precisa se submeter, imagine agora com tudo atrasado e a vida suspensa? Se não dou uma chegadinha no bar aqui embaixo pra beber um chopinho, você acha que vou sair de casa para ir a médicos?

Não dou conta! Não dá pra resolver tudo isso num só? Por que não há apenas um médico que me resolva todas essas coisas? Odeio especialidades. Parece produto de limpeza! Lembro-me de uma crônica minha, de tempos muito remotos, que falava da especialização dos produtos de limpeza. Ei-la, num trechinho:

“Abri a listinha e percebi que era enorme, sendo que na metade direita havia uma sequência infindável de produtos de limpeza. Tira-limo. Bom, limo é aquela substância viscosa que surge em lugares úmidos. Deve funcionar melhor que um produto genérico. Lustra-móveis. Este é fácil e dispensa apresentações. Limpa-alumínio. Ah, fácil também. Para as panelas, para tirar a gordura, a fuligem, a mancha de leite queimado. Desengordurante. Hum… Limpador perfumado. Sei… Limpeza pesada. Tá bom… Essa pluralidade de produtos de limpeza — comecei a divagar, enquanto ia tomando os corredores — é o que a sociedade humana chama de “especialização”. Uma criação que valoriza o profundo em vez do superficial. A especialização chegou aos produtos de limpeza.”

E aos médicos.

Pra piorar a situação, tive que furar a fila por causa do estômago. À noite, uma refeição básica não causa tumulto, mas qualquer desvio, por mais inofensivo que seja, como um talharim ao molho pesto, por exemplo, eu viro a madrugada com problemas. E pior é que com esse estômago ruim ando carente de outros deleites, como uma dosinha de uísque pra aguentar o tranco, um vinhozinho pro talharim.

Uma certeza eu tenho: a dor de estômago é herança da pandemia.

Ah, bicho, a vida tá foda! Dá pra dormir hoje e acordar amanhã vacinado?

 

Sergio Geia-Banner Rodapé da Coluna

 

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