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Crônica do Dia – ISABEL MIRIAN – Por Malude Maciel

 

A moça da janela tratava-se, nada mais nada menos que a única filha, ISABEL MIRIAM.

Na foto: A escritora Caruaruense Malude Maciel
Malude Maciel

Quando passava pela Rua da Matriz, Av. Rio Branco, Centro de Caruaru, pela calçada da direita de quem vai para a catedral, olhava a casa 209, de esquina pra passagem que dá na prefeitura, e via sempre uma senhorita à janela dessa residência de estilo antigo, com jardinzinho antes do espaço que tem a porta e o janelão. Tal qual a “Carolina” da música de Chico Buarque.

A moça da janela tratava-se, nada mais nada menos que a única filha, ISABEL MIRIAM, (além de dois filhos, Hélio e Carlos Flávio) do jornalista fundador, diretor e redator do jornal Vanguarda, José Carlos Florêncio, pessoa da mais alta reputação que deu o nome à Câmara Municipal Caruaruense, foi vereador e influiu decisivamente para várias benfeitorias na cidade. Existe também a Escola Estadual José Carlos Florêncio no município.

Minha mãe também se chama Isabel, está viva e lúcida, do alto dos seus 94 anos e, como amiga de d. Nadege e d. Sema, de quando em vez visitava-as na bonita e já mencionada residência, juntamente com minha tia Louzinha que era uma amigona daquelas senhoras, (mãe e avó de Bel) Eu ia junto, ainda criança e lembro que entrávamos por uma porta lateral.

Na minha infantilidade acreditava que Bel não podia andar por conta de um vento frio e forte bater nela quando bebê, depois de um banho morno.

Apesar das dificuldades Bel não se acomodou; da sua cadeira e da sua janela acompanhava todas as coisas. Sabia de todos os acontecimentos da cidade, seu mundo. Era uma criatura inteligente e vaidosa; nunca dizia a idade, mas vestido novo, bolo e os parabéns não podiam faltar na data natalícia, como também convidava Mons. Bosco e depois Pe. Joselito de quem era muito amiga. Participava de festas na igreja sempre que alguém a levasse.

Chamava os passantes e conversava do seu jeito, oferecia bilhetes de rifas e perguntava as novidades. Reconhecia as pessoas de longe e a boa memória sempre lhe ajudou bastante.

Contou-me que seu pai teve um jeep e ela gostava de ser levada pra passear, mesmo que isso tivesse sido há anos, ela não esquecia e se reportava ao fato agradável com alegria. Telefonava aos amigos e todos captavam sua voz e sua maneira de se expressar. Ela conseguia dar seu recado.

Foram anos e mais anos procurando superar os empecilhos, driblando situações indesejáveis e procurando viver cada momento intensamente. Cada um sabe suas deficiências, pois ninguém é perfeito e não pode desanimar nem se entregar ao desespero nem ao conformismo. Precisa lutar contra as adversidades com as armas que dispõe. Bel foi uma lição de vida por não se acomodar nem lastimar. Não contou com várias evoluções nas áreas da saúde e da comunicação que poderiam ter lhe dado maior qualidade de vida, porém o telefone e a televisão eram utilizados constantemente. Sabia controlar suas cuidadoras que lhe obedeciam nos mínimos detalhes. Isso mostra a força de vontade e o poder da mente sobre o físico, o material.

Faço essa homenagem àquela criatura pelo sofrimento, pela superação dentro do possível e por marcar aquele espaço, deixar sua figura de “moça da janela” na recordação; sua existência não foi em vão, tenho certeza. Quem a conheceu de perto e quem a viu apenas de passagem, parou um instante para refletir sobre os porquês da existência, que somente Deus sabe os desígnios reservados para cada ser.

Desde 30.06.2020 a janela permanece fechada porque Isabel partiu, deixando uma falta, uma lembrança e saudades. Recebeu, de Jaciara Fernandes, o título de: Guardiã da Rua da Matriz.

Bel, fazia parte da paisagem.

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