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LENA – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella

Lena acordou. Não reconheceu o teto sobre sua cabeça. Não reconheceu a janela à sua frente. Não reconheceu o homem ao seu lado.

Estava deitada num colchão velho e fedorento, jogado diretamente no chão. Estava nua e, quando se deu conta, ficou confusa.

Calma, Lena. Procure se lembrar. O que aconteceu na noite de ontem?

Lena sentou-se. Não sabia porque estava ali. Não sabia como havia chegado àquele lugar. Não sabia o que tinha acontecido.

Sentia dores por todo o corpo e tinha a sensação que ele fedia como o colchão. Estava nua e algo a tinha machucado entre as pernas.

Lena, você precisa se acalmar. Porque você sente dores?

Lena levantou-se. Não entendia de quem era aquele rosto no espelho. Não entendia as olheiras profundas sob os olhos. Não entendia porque havia mudado assim.

Flashs vinham a sua cabeça e ela sentia que ia vomitar. O homem lhe dando a bebida. O homem sobre ela. O homem roncando no colchão.

Lena, você precisa se acalmar. Vai acordá-lo?

Lena vestiu-se. Só pensava em ir logo embora. Só pensava em tomar um banho fervente. Só pensava no que não queria sentir.

Juntou suas coisas e saiu. O lugar fedia como todo o resto. Só com o cheiro sob suas narinas, ela não olhou para mais nada e foi caminhando pra casa.

Lena, acalme-se. O que você vai fazer agora?

Lena chorava. O mundo não a tinha defendido. O mundo não era o lugar que queria estar agora. O mundo fedia como o colchão.

Desacelerou o passo. Não contaria a ninguém e deixaria isso em um lugar esquecido dentro de si.

Como um sonho, para ser lembrado por toda a vida.

Imagem: Óleo sobre tela by Helena Kraft
Imagem: Óleo sobre tela by Helena Kraft

 

Sobre a autora :

Nádia Coldebella é paranaense de espírito, corpo e coração. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já fez um pouco de tudo dentro da área de Psicologia: atuou como psicóloga clínica, professora universitária, psicóloga organizacional e palestrante. Atualmente, é servidora pública, atuando como psicóloga judiciária. Escreve, desenha e pinta desde a infância e é na arte que reside sua alegria. Gosta de escrever sobre a vida, os dramas e os conflitos dos corações humanos. Também gosta de um pouco de sarcasmo em suas histórias. É mulher trabalhadora, esposa e mãe e como outras tantas nesse mundo, sonha em construir um mundo melhor, mais equilibrado e sensato, um lugar em que suas filhas possam sentir-se livres para ser aquilo que vieram ser.

 

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