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Crônica do Dia – Em outros tempos – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella – escritora e artista plástico

Em outros tempos, uma mulher, de roupa cor de vinho, sentada ao sol, dividia sua atenção entre as filhas e algumas anotações. Estavam numa praça cheia de árvores, grama e um parque infantil. De vez em quando, as crianças voltavam para dar um abraço ou pedir alguma coisa à mãe.

Naqueles tempos, outras duas crianças se engalfinhavam por causa de um caminhãozinho.

– Devolve, Lucas! – Gritava a mãe de Lucas, temerária do que pensasse a amiga, mãe da outra criança. – O João é pequeno.

– Me dá! – Gritava o menininho arrogante para Lucas, ciente do seu poder. Lucas, raivoso, agarrara uma pá da mão dele, que gritava mais alto ainda.

É meu, é meu, choros e rosto vermelho não assustavam Lucas, que, mais forte, conseguiu colocar a pá dentro da caçamba do caminhão. Ele devolveu tudo para uma criança menor ainda.

– É do Diguinho! – Era um Lucas ameaçador que fazia o João se calar, para garantir o direito de uma criaturinha ainda de fraldas.

A mãe do Diguinho era toda sorrisos para Lucas e para a mãe de Lucas. Mas a mãe de Lucas estava dividida entre o orgulho que sentiu do filho e a vergonha que sentiu da mãe de João.

Mas isso foi em outros tempos.

Ainda naqueles tempos, as filhas da mulher de roupa vinho se aproximaram da mãe e tentaram jogar bola. A maior era a mais nervosa.

-Giovana!!! – Falava com raiva, frustrada. Não tinha conseguido segurar a bola e culpava a irmã.

– Não é assim que joga, Stella! É assim! – E a filha menor atirara a bola bem nos óculos da irmã, que agora se preparava para o ataque.

– Giovana! – E ela grunhia! – Giovana!!

A mãe apenas olhou firme e as duas se acalmaram. A bola foi tomada e as crianças voltaram ao parque. Problema resolvido. Isso tudo naqueles tempos.

Eram tempos em que duas adolescentes e duas meninas menores jogavam baralho, sentadas na grama, sobre uma toalha. Num brinquedo do parque, uma menininha loira, de blusinha rosa e shorts com estampa de leopardo, tentava se equilibrar. Ali perto o João chorava de novo, agora porque não conseguia chutar a bola. Foi ajudado por Lucas. Uma mulher maquiada, vestida com roupa de estampa de onça empurrava um carrinho vermelho de bebê. Dentro dele havia uma criança, uma menininha, também uma pequena onça.

Eram outros tempos quando a filha menor da mulher de vinho pegou um galho de árvore na mão e disse para a mãe que iria procurar água. A mais velha abandonou a brincadeira e correu até uma torneira ali perto, sempre sob o olhar atento da mãe.

– Mamãe, eu reparei uma coisa. – Disse depois a filha mais velha para a mulher de vinho. – Tem raízes que crescem em cima da terra e raízes que crescem embaixo. Olha. – A irmã menor cavava um buraco perto da árvore para provar.

– Eu não achei nenhum tesouro, mamãe – Disse Giovana, desapontada, levantando-se do chão e logo correndo junto com a irmã, em direção a outra árvore.

Nela havia um cabide com roupas de frio penduradas. “Se você não precisa, deixe. Se você precisa, leve”, dizia uma placa que denotava uma iniciativa simples e criativa de uma boa alma que garantia um pouco de quentura para os andarilhos que dormiam na praça naqueles tempos.

Eram outros tempos e o sol estava indo embora. O vento frio começava a soprar e as mães se encolhiam. A mãe de Lucas chamou o filho, que se despediu do pequeno João. O João chorou muito depois que Lucas partiu. Outras mulheres buscaram seus filhos, porque o frio estava tomando conta do parque. Foram embora.

Naquele tempo, a mulher de vinho resistiu ao frio o quanto pôde, mas por fim chamou as filhas. Elas, porém, permaneceram inertes perto da árvore, com uma pena na mão. Pena grande e muito alva.

– Mãe, Mãe! De que ave é essa pena? – Inquiriu Giovana.

A mãe impressionou-se. Nunca vira uma pena assim. Um passarinho piou. Um pio horrorizado. A filha mais velha pareceu não notar e saiu correndo atrás da ave, seguida pela irmã menor.

– Bem-te-vi! Ainda bem que eu te vi!!! – Gritou Stella empolgada.

Logo as duas irmãs pararam e observaram a ave levantar voo. E sentiram o vento gelado.

Eram outros tempos e o parque já estava bem vazio, quando elas pediram para ir embora dali. A mãe estava triste, porque sentia frio e porque sabia que a pena não era do pássaro.

Isso foi em outros tempos, quando em algum lugar ali perto, um anjo que perdera uma pena da asa, chorava. Ele sentia o frio. Ele sabia que o frio demoraria um longo tempo para ir embora.

Arte: Aquarela e nanquim. By Nádia Coldebella
Arte: Aquarela e nanquim. By Nádia Coldebella
Sobre a autora :

Nádia Coldebella é paranaense de espírito, corpo e coração. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já fez um pouco de tudo dentro da área de Psicologia: atuou como psicóloga clínica, professora universitária, psicóloga organizacional e palestrante. Atualmente, é servidora pública, atuando como psicóloga judiciária. Escreve, desenha e pinta desde a infância e é na arte que reside sua alegria. Gosta de escrever sobre a vida, os dramas e os conflitos dos corações humanos. Também gosta de um pouco de sarcasmo em suas histórias. É mulher trabalhadora, esposa e mãe e como outras tantas nesse mundo, sonha em construir um mundo melhor, mais equilibrado e sensato, um lugar em que suas filhas possam sentir-se livres para ser aquilo que vieram ser.

 

1 comentário
  1. branco Diz

    peguei se conto no cabide da árvore é o vesti……rle me aqueceu é continua me aquecendo de terna maneira.

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