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Clube do Filme – Ilha do Medo – Por Mary Queiroz

Mary Queiroz
Mary Queiroz

Pensado, explorado, exibido e sentido de forma completamente diferente, dependendo do lugar e do estado em que o espectador se encontra.

Assim como o protagonista, precisei enfrentar meus medos para escrever sobre este delicioso thriller com mistério. Digo isso porque analisar um filme de Martin Scorsese, requer bastante coragem e uma certa dose de ousadia, afinal estamos diante de uma obra que mexe com a estrutura psicológica de qualquer individuo que a assistir.

Martin Scorsese em muitos de seus filmes, propaga a grandiosidade do cinema, fazendo de suas obras, instrumento de transformação. Ele com seu gigantesco jeito de contar histórias extremamente fortes, construiu seu legado junto ao cinema. Se utilizando do gosto pessoal e das referências que carrega, desenvolve e dirige filmes que são utilizados também como reflexão. Assistir um filme dele é ter acesso ao melhor do cinema, é saber que nem sempre, suas obras vai nos levar a lugares confortáveis de ser ver ou estar, mas todos de alguma maneira, agregará conhecimento a nossa capacidade de enxergar e ver o ser humano como ele é em sua totalidade enquanto ser social. Sem colocar julgamento algum, Martin Scorsese apenas entrega o espelho da sociedade para a humanidade, misturando novas possibilidades para a percepção do espectador. Foi assim em Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), Cabo do Medo (1991), Cassino (1995), O Aviador (2004), Os Infiltrados (2006), O Lobo de Wall Street (2013), O Irlandês (2019) e em tantos outros filmes, assim como é também em Ilha do Medo de 2010.

Clube do Filme - Ilha do Medo  - Por Mary Queiroz
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Em Ilha do Medo, somos conduzidos a acompanhar uma trama que se passa na década de 50. Com a fuga de uma assassina perigosa de um hospital psiquiátrico, localizado em uma ilha de acesso restrito, o detetive Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e seu parceiro Chuck (Mark Ruffalo), são levados até lá para investigarem o desaparecimento misterioso da paciente de seu quarto trancado no hospital. Lá, uma rebelião se inicia e o agente terá que enfrentar seus próprios medos.

A primeira coisa a ser dita é que este filme é simplesmente sensacional, chegando até dar medo de tal afirmação. O visual da ilha é projetado para deixar o espectador totalmente apavorado e apreensivo para desvendar o desaparecimento da paciente que passamos a conhecer através de relatos nada agradáveis . Metade da construção do roteiro é super produtiva e a outra metade também, fazendo a gente visualizar o filme na cabeça através de vários elementos na composição de cada personagem, dos ambientes e dos diálogos e questionamentos em meio a busca da paciente que sumiu do nada, de um lugar onde tudo e todos são vigiados, mas que ninguém neste caso especifico não viu e nem sabe informar nada e tudo isso acaba nos levando a loucura. Ao exibir cenas tensas, misteriosas e dramáticas numa sintonia espetacular, fazendo uso de emoções diversas, do triste ao desespero, a trama nos suga para dentro daquela ilha ameaçadora, e sem nos importar, nos unimos com o detetive Teddy Daniels e com as pistas dadas para encontrar uma solução para todo o mistério.

Leonardo DiCaprio como sempre da um show de interpretação ao seu personagem. Destaco a composição de seus movimentos, todos explorados e exibidos através de closes simplesmente extraordinários. Além da sua linguagem corporal e sua personalidade fechada e complexa, somos presenteados com bastante flashback, envolvendo questões familiares e pessoais de seu personagem e em nenhum momento nos sentimos incomodados quando a narrativa sutilmente encaixa estas lembranças, junto com a investigação.

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É fato que Martin Scorsese usa o cinema para entender o ser humano, o que eles são e representam. Neste filme aqui, de forma potente, também segue explorando a capacidade do espectador como a do protagonista para satisfazer estes anseios. Como em tantas outras obras , sua câmera viva acompanha as ações dos personagens, propondo o ritmo de cada acontecimento, cena por cena. Com o uso dos cortes, dos sons e plano detalhe, ele consegue transitar nas camadas da personalidade de cada um, usados os mais diversos ritmos e tons, sugerindo o que aconteceu, acontece ou pode acontecer naquele lugar. Sem deixar o espectador duvidar da realidade dos fatos, sua direção primorosa aponta o caminho a ser percorrido pelo detetive, sem dar garantias de segurança a sua vida ou a do público que assiste tudo com o coração na mão.

Ilha do Medo é um filme instigante, que fala de desejos, sonhos, paixões e até fé. É um que se destaca e se torna inesquecível ao conseguir retratar a complexidade do psicológico de seus personagens, respeitando os limites da vida, das diferenças e dos traumas que cada ser pode carregar ou enfrentar durante a jornada da vida, onde para uns, o caminho pode ser regado com heroísmo, mas para outros, pelo medo, medo da verdade, das pessoas e da própria vida.

PROGRAMA CLUBE DO FILME

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O Programa Clube do Filme vai ao ar, ao vivo, todo sábado, às 13h pela Rádio Cultura do Nordeste 96,5 FM /AM 1130, apresentado por Edson Santos e Mary Queiroz. Acompanhe pelo YouTube no canal Rádio Cultura do Nordeste.

 

Sobre o autor

Mary Queiroz é radialista e cinéfila, apresenta o Programa Clube do Filme, todos os sábados a partir das 13h, junto com o radialista Edson Santos pela Rádio Cultura do Nordeste 96,5 FM. Sugestões: [email protected]

 


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