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Coluna do Dia – Fake News X Realidade – Por João Luís

João Luis Gregório e Silva
João Luis Gregório e Silva

As “fake news” são notícias falsas que causam um desserviço à sociedade porque geram confusão, desinformação e preocupações infundadas sobre diversos assuntos. Os principais meios de propagação das fake news são as redes sociais, cada vez mais populares. O excesso de informações propagados por essas redes pode resultar em dificuldades para o discernimento sobre o que é verdadeiro ou falso. Para alguns jornalistas o termo fake news é aplicado para notícias que não passaram por um processo profissional de análise de informação e por não estar vinculado a nenhuma fonte reconhecida como um jornal de credibilidade, por exemplo. Assim, o que hoje chamamos corriqueiramente de fake news seria na verdade uma reformulação da velha e conhecida fofoca… Na vida “dentro da internet” somos os avatares que atraem os grandes veículos de comunicação. Uma conta no Facebook ou um site pessoal, não importa. Sempre somos monitorados e nossas decisões no virtual geram dinheiro e interesse dos conglomerados no real. Contudo, muitas vezes, os veículos de comunicação se aliam aos conglomerados para influenciarem nas decisões de consumo. Desde que isso seja feito com ética, está tudo bem. Afinal, esse é o trabalho do marketing digital! Porém, as informações falsas, podem ter origem em qualquer pessoa. E isso pode ser feito de maneira proposital ou por falta de conhecimento técnico específico.

A área de tecnologia da informação é a grande responsável pela distribuição das fake news, infelizmente. Como a tecnologia pode ser usada em qualquer ação, por qualquer pessoa… Então, ficamos usando nossas conexões para disseminarmos o que não deveria ser dito.

fake news
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Sério demais – É importante entender que divulgação de fake news é algo que deve ser discutido e combatido porque pode resultar em tomadas de decisões erradas. Somente no contexto da atual pandemia, um enorme conjunto de notícias falsas foram propagadas sobre o uso de produtos de limpeza, o uso de drogas milagrosas, a automedicação e métodos ineficientes de proteção ao coronavírus. Essas “notícias” resultam em problemas sérios de saúde pública. Para se ter uma ideia, na cidade de Nova Iorque, os centros de atendimento a intoxicação atenderam a muitos chamados após a propagação de uma notícia falsa que afirmava sobre a ingestão de desinfestante combateria o coronavírus.

As academias – As universidades e demais centros de pesquisa tem um trabalhado em prol da educação digital das pessoas, incentivando a tomada de consciência sobre o que é certo divulgar nas mídias sociais e quais fontes são seguras. A ciência nesse momento é fundamental para nortear nossos atos, treinando nosso olhar crítico para diferenciar uma notícia falsa de uma verdadeira, orientando a não compartilhar imediatamente a mensagem assim que recebemos sem antes verificar sua autenticidade. Devemos nesse processo observar as datas das postagens e ter o compromisso de checar a notícia em mais de uma fonte confiável, ou seja, diversificar nossas fontes de informação. Importante destacar que mensagens de WhatsApp sejam elas por meio de posts ou áudios bem como “memes” de Facebook e Instagram não são fontes confiáveis e portanto, devem ser evitadas. Sem base científica o conteúdo deve ser colocado em dúvida e não deve ser repassado.

fake news no whatsapp

Canais importantes – Existem canais que podem ser usados para confirmar as notícias que recebemos, como: Ministério da saúde (www.saude.gov.br), Anvisa (portal.anvisa.gov.br), Fiocruz (portal.fiocruz.br) e páginas de universidades e centros de pesquisa de excelência; Entre elas, destacamos a Universidade Federal do Rio de Janeiro (ufrj.br/search/node/fake%20news).

Outra medida importante é atuarmos como agentes de controle de qualidade, denunciando notícias fraudulentas. Essas denúncias têm contribuído para retirada desses materiais de circulação e para a responsabilização dos propagadores. O Ministério da Saúde tem disponibilizando um número de whatsapp (61992894640) para envio de mensagens da população sobre informações falsas e virais para serem apuradas. O Ministério Público Federal também pode ser acessado para enviar denúncias sobre fake news por meio do aplicativo “SAC MPF”, disponível para sistemas iOS (https://apps.apple.com/us/app/mpf-servi%C3%A7os/id1446296113?ign-mpt=uo%3D2) e android (https://play.google.com/store/apps/details?id=br.mp.mpf.appmpf). As denúncias poderão ser feitas rapidamente pelo usuário, incluindo imagens com anexo. O Ministério Público Federal alerta que os produtores e multiplicadores de notícias falsas podem ser acionados nas esferas criminal, cível e eleitoral. Punições como prisão ou multa podem ser aplicados aos indivíduos que compartilharem notícias falsas.

Ciência sem fake news – Vamos diferenciar o que são as pesquisas científicas das lorotas. Foi pensando nisso que vamos demonstrar o passo a passo de uma produção científica e discutir as implicações das fake news no cotidiano do público e dos cientistas. De acordo com Regina Célia Mingroni Netto, geneticista e professora do Instituto de Biociências da USP, o mais importante para garantir a qualidade de uma pesquisa científica é um bom planejamento, ou seja, uma boa metodologia. Ao ser questionada sobre o que é um bom planejamento de pesquisa, a professora respondeu: “Em primeiro lugar é ter um bom tamanho amostral, que seja suficiente para responder a pergunta para a qual a pesquisa busca uma resposta, para que possa demonstrar a hipótese. Muitas vezes os resultados de duas pesquisas similares são muito diferentes em razão do tamanho amostral”. Ainda explana que: “ As fake news contribuem muito para a desinformação e deseducação do público. É abominável, do ponto de vista ético, divulgar alguma informação com uma intenção secundária. É abominável, porque uma população que tem uma educação limitada em termos científicos, não têm capacidade de discernir fake news de uma informação científica sólida. Nesse ponto as redes sociais são muito perigosas porque, para o frequentador de redes sociais, tem o mesmo peso uma informação de uma revista científica séria, de um cientista sério, e uma fake news”.

Fake News - mentira

Opinião dos jornalistas – O jornalista Caio Túlio Costa, membro da Torabit (http://www.torabit.com.br/) – plataforma de monitoramento digital – explica que as notícias mentirosas existem há muito tempo, mas que agora, com as redes sociais, ganharam um alcance muito maior. “Isso sempre aconteceu, a diferença é que agora isso está acontecendo em escala industrial. Agora você tem movimentos, em sua maioria políticos, criando notícias falsas exatamente para fazer comunicações negativas em relação a seus adversários. Isso se vê muito em campanhas eleitorais com a intenção de diminuir o alcance de um candidato. Aconteceu isso no Brexit, na campanha do Trump, na do Bolsonaro (aqui no Brasil) e vemos isso em determinados países da Europa. E essa é a grande diferença. Daí a necessidade cada vez mais premente das pessoas que trabalham com informação tecnicamente confiável se empenharem em mostrar que aquela informação é confiável, que tem credibilidade”.

O jornalista José Tadeu Arantes, membro da Agência FAPESP (https://agencia.fapesp.br/inicial/), afirma que: “A má informação, a desinformação e a informação falsificada assolam o mundo contemporâneo, dominado pelas mídias digitais, pelas redes sociais e pela circulação de notícias em escala global e em tempo real. O território da ciência, supostamente protegido pelo apuro na realização das pesquisas e pelo rigor em sua difusão, não está imune. As fake news invadiram o noticiário científico em uma época em que hipóteses como a do movimento geocêntrico dos planetas ou a da criação de espécies biológicas imutáveis, refutadas por séculos de estudos criteriosos e bem fundamentados, voltaram a circular na web com sabor de novidade. A informação sempre foi uma arma política, uma arma de disputa pelo poder. Não é novo na história da humanidade o uso da informação e da comunicação como instrumento de disputa.”

Fofoca
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As fake news do passado – O papel deletério que a falsificação da verdade sob o rótulo de ciência pode exercer sobre uma sociedade foi bem exemplificado por Peter Schulz por meio de um caso histórico famoso: o Projeto Huemul, conduzido na Argentina de 1948 a 1952, durante o primeiro mandato presidencial de Juan Domingo Perón (1895-1974). Político populista – lembrando muito os novos socialistas de hoje – Perón teria desestruturado a comunidade científica argentina depois de assumir a Presidência em 1946. Logo, passou a ser influenciado por Ronald Richter (1909-1991), um autoproclamado cientista, alemão nascido na Áustria, que emigrou para a Argentina depois da derrota do nazismo em 1945. Segundo Schulz, Richter tornou-se uma espécie de guru do presidente, convencendo-o a implementar um “projeto de controle da fusão nuclear para a produção de energia barata, sem resíduos radioativos, que transformaria a Argentina na primeira potência a dominar uma tecnologia que todos começavam a perseguir”. De fato, os experimentos de Richter não levaram a fusão nenhuma. Porém, muito dinheiro público e muito esforço governamental foram despendidos nesse projeto secreto, até que a fraude fosse desmascarada por um cientista de verdade, José Antonio Balseiro (1919-1962).

Questões de saúde e etnia – Um caso concreto, resultante não do achismo leigo que circula na internet, mas de notícia mal apurada pela mídia, resultou em queda expressiva na vacinação contra o vírus do papiloma humano (HPV), de enorme importância na prevenção do câncer de colo de útero. A vacina é ministrada em duas doses e, no período 2014–2018, na faixa etária de 9 a 14 anos, a cobertura vacinal caiu de 60,8% na primeira dose para 44,2% na segunda. Isso se deveu, em grande parte, à notícia de que três meninas do município de Bertioga, no litoral paulista, tinham tomado a vacina na escola e haviam sido acometidas de paralisia nas pernas.

As consequências são mundiais. As notícias falsas têm impactos graves no mundo inteiro. Em Mianmar, por exemplo, campanhas deliberadas de desinformação levaram à eclosão da violência contra a minoria muçulmana Rohingya. Mais de 600 mil pessoas dessa etnia já buscaram refúgio em Bangladesh.

Geração-Alpha
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Geração Alpha – Essa geração nasceu “dentro” da Internet das Coisas (IoT). Eles são o alvo principal das companhias YouTube e Netflix. Eles nasceram a partir de 2010 e são o futuro promissor do e-commerce e até da Educação a Distância. Possuem uma visão de que o YouTube é mais importante do que a BBC ou que a Wikimedia Foundation (https://wikimediafoundation.org/) deve suplantar todas as editoras do planeta juntas. Essa geração tem mais facilidades no acesso com o smartphone do que seus pais numa busca de conteúdo na revista semanal preferida. Mas, como as fake news são os espinhos nesse jardim digital, torna-se urgente que se crie ferramentas de controle e de reconhecimento dos fatos reais. Assim, algumas nações se adiantaram nessas propostas.

Da Finlândia ao Catar – Sabemos que a Finlândia é uma referência mundial em educação e que já vem se preocupando há algum tempo com a preparação de seus cidadãos para um cenário digital cada vez mais complexo. Em 2014, lançou o Faktabaari (https://faktabaari.fi/), uma iniciativa que ajuda as pessoas a identificar notícias falsas. O país também incentiva as crianças em idade escolar a examinar vídeos do YouTube e artigos publicados em mídias sociais em busca de erros factuais e estatísticos, com a ajuda dessa ferramenta.

O Instituto de Pesquisa em Computação do Catar (Qatar Computing Research Institute – https://www.hbku.edu.qa/en/qcri), desenvolveu uma plataforma para incentivar a alfabetização digital e o consumo de notícias verdadeiras entre o público denominada de Tanbih (http://tanbih.qcri.org/). Essa plataforma agrupa artigos de acordo com os acontecimentos e reúne informações adicionais sobre fontes. A partir daí, gera perfis dos meios de comunicação, sua ideologia política, reputação e histórico. Em seguida, a ferramenta analisa a inclinação política dos usuários de mídias sociais que interagem com veículos de notícias específicos, avaliando sua disposição para compartilhar artigos. O Tanbih vai ainda mais longe, ele treina os usuários para que eles sejam capazes de identificar o uso.

Os EUA e os Ingleses estão preocupados – A lei federal que trata disso nos Estados Unidos, por exemplo, foi pensada para que essas plataformas tivessem mais liberdade e flexibilidade. Agora, o Congresso norte-americano analisa como aumentar a responsabilidade dessas empresas sobre o que é postado em seus canais, ainda que por terceiros.

Recentemente, a BBC anunciou uma parceria com editoras e empresas de tecnologia, como Google, Twitter e Facebook, para ajudar a combater a desinformação online. O grupo elaborou mecanismos como um sistema de alerta precoce, por meio do qual as organizações se avisam quando detectam uma notícia falsa; uma campanha conjunta de educação para a mídia online e um sistema de cooperação para que os eleitores tenham acesso a informações confiáveis.

BBC

Assim, o que concluímos dessa viagem pela mídia digital e o poder “ruim” das fake news, é que não existem apenas notícias falsas, mas, principalmente, notícias com alto grau de influência. Assim, ao assistirmos ao telejornal de uma empresa forte, vemos que existe pouca preocupação no fato e muita importância em influenciar a nação. A mesma notícia, reportada por uma empresa menor, dá mais importância ao fato e não ao modelo de influência. Ou seja, muitas vezes, os jornais “menores” demonstram um nível de credibilidade e imparcialidade muito superior aos veículos mais poderosos. Também é visível que os grandes grupos da web devem buscar sempre um policiamento visando barrar as fake news, mas, isso também é um dever solidário de cada um de nós. Afinal, muitas vezes, uma notícia falsa é distribuída de forma irresponsável pelos leitores e não apenas pelos agentes que a redigiram.

Expediente:

Caio Túlio Vieira Costa – Jornalista e professor de comunicação. Além das aulas na Escola de Propaganda e Marketing em São Paulo, desde 2015 Caio Túlio se dedica ao Torabit, um sistema de monitoramento digital do qual é um dos sócios fundadores. Doutor em comunicação pela Universidade de São Paulo, Caio Túlio desenvolveu em 2013 na Columbia University (Nova York) uma pesquisa para mapear os modelos de negócios possíveis para a indústria da comunicação na era digital. Dela resultou o paper “Um modelo de negócio para o jornalismo digital: como os jornais devem abraçar as redes sociais, a tecnologia e os serviços de valor adicionado”.Doutor em comunicação pela Universidade de São Paulo, é professor da pós-graduação em jornalismo na Escola de Propaganda e Marketing (ESPM) em São Paulo. A pesquisa foi realizada por Caio Túlio na condição de Visiting Research Fellow na Columbia University Graduate School of Journalism, em Nova York. E-mail: [email protected]

Regina Célia Mingroni Netto – Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (1984), mestrado em Ciências Biológicas (Biologia Genética) pela Universidade de São Paulo (1988) e doutorado em Ciências Biológicas (Biologia Genética) pela Universidade de São Paulo (1994). Defendeu tese de Livre-Docência em 2011. Atua como docente do Depto. de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP desde 1995 e atualmente é Professora Associada. Tem experiência na área de Genética Humana e Médica, com ênfase em genética molecular humana, tendo atuado principalmente nos seguintes temas: síndrome do cromossomo X frágil, surdez hereditária e variabilidade molecular em populações brasileiras, investigando populações afro-brasileiras de remanescentes de quilombos. Foi coordenadora do programa de Pós-Graduação em Biologia-Genética do Instituto de Biociências da USP entre 2008 e 2013. Foi coordenadora do programa de Mestrado Profissional em Aconselhamento Genético e Genômica Humana de maio de 2015 até maio de 2019. Atualmente é Presidente da Comissão do Instituto de Biociências da USP.

E-mail:[email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/9574793532076058.

 

[su_box title=”Sobre o autor” box_color=”#12a675″]

JOÃO LUIS GREGORIO E SILVA Nascido em Recife. Especialista em Planejamento e Gestão Organizacional (UPE), Graduado em Gestão de Negócios (UniFBV), Especializando em Engenharia de Software (FAMEESP), Técnico em Informática (Unibratec). Funcionário da Secretária de Administração de Pernambuco e Consultor nas áreas de negócios e implantação de T.I. Autor de alguns livros, entre eles: Arquitetura em nuvem (Ed. Amazon DKP/EUA/ISBN 979-8639064012); Matemática Financeira Fundamental (Ed. Amazon DKP/EUA/ISBN 979-8639411632); Contabilidade e gestão para executivos (Ed. Clube de Autores/Brasil); Economia fundamental (Ed. Clube de Autores/Brasil).Contato: [email protected][/su_box]

 

 

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