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Crônica do Dia – Pura implicância – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella – escritora e artista plástico

Recém-graduada, o primeiro trabalho que apareceu foi o de professora substituta. Ia dar aula da sexta série ao ensino médio, quarenta horas por semana. Havia estudado muito e tinha uma vontade enorme de fazer a diferença. Resolveu caprichar, arriscou um vestido bonito, prendeu o cabelo num coque e pôs um salto. Melhor causar presença. Chegou antes, foi pra sala da sexta série e esperou todo mundo entrar.

– Boa tarde. Sou sua nova professora de História e venho substituir a professora… – lembrou-se que ninguém havia dito o nome da professora que havia se aposentado. – Por favor, alguém pode me dizer o nome da professora?

– Valdelícia – gritou um aluno do fundo, com voz desmilinguida.

– Donaaa Deliiiícia! – alguém não identificado que parecia mais uma gralha gritando também resolveu dar o ar da graça.

A nova professora respirou fundo e mordeu os lábios por dentro, fazendo cara de brava. Virou-se para o quadro negro, de costas para a sala, de cabeça baixa, a voz saindo rouca:

– É melhor os engraçadinhos terem respeito com a Dona Valdelícia, senão vou precisar informar a direção.

Pegou o giz na mão e encheu a lousa. Escrevia rápido e quando chegou ao final, os alunos, que de início mostravam-se agitados, já estavam quietinhos copiando.

Crônica do Dia - Pura implicância - Por Nádia Coldebella
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– Vão rápido que já vou apagar a primeira parte.

– Péra, profe!

– Tá bom, enquanto espero vou fazer a chamada. – Arrumou o livro na mesa – Alana Caroline?

– É Alana Carolaaine, profe. To aqui.

– Andrielle Micaela?

– Presente! Mas é Andrie-ly, com iperson profe.

Bianca Sullen, Carolaine Steffânia, Cauã Gustavo e Diogo Everton estavam presentes e tudo certo na pronúncia do nome. Então veio a letra E.

– Enzo Gabriel?

– Presente.

Enzo Gabriel tinha dois, mas também Enzo Rafael e um estranho Enzo Vitor. Depois duas Evelyns, uma Emily e uma perdida Edivânia.

Ela deu sorte até a letra F. Só tinha um Fael, que ela pensou ser Rafael, mas se deu conta antes de chamar. Era a vez do J.

– Jáderson?

– Profe, é Jenderson.

– Desculpe. Jenderson?

– Presente.

Ao Janderson, seguiram-se, não exatamente nessa ordem, Jenniffer Stefanie, Jennifer Karolaine; Jennifer Paloma e Jenny Mariah. E Júlias. Ela respirou aliviada quando chegou no K. Mas logo fechou a cara: Karolaine Andrielly, Karolaine Gabrielly, Karol Maetê. Veio o L, com suas Lauras e Leonardos e o M com as Marias alguma coisa, Marianas e Matheus com TH. Até aí tudo bem. Então:

– Maicou… – ela parou um pouco e leu atentamente o que estava escrito. Mordeu o lábio ainda mais forte. Respirou fundo e foi na fé. – Maicou Jéquison.

– Preseentih! – um garotinho franzino e de olhar esbugalhado estufou o peito, dando um leve gritinho no final da palavra.

Ela desviou os olhos e respirou fundo. Por sorte agora vinham os Michéis e os Miguéis. Logo chegava a letra N. Só tinha um nome, que ela leu bem devagar, pra ter certeza do que lia:

– Na-rú-bia Ca-ro-la…

Uma menininha mal encarada, de cabelos avermelhados e espantados, olhou-a direto nos olhos.

– Sou eu, fessora. – Além de mal encarada, a vós da criaturinha era bem anasalada.

A professora deixou a caneta cair de propósito e abaixou-se para pegar, mordendo os lábios com mais força. Quase sangrando. Ajeitou-se na cadeira e retomou a chamada.

A lista terminou tranquila, com um Odilon Uelson, três Pâmelas – Cristine, Camille e Emannuelly, respectivamente -, alguns Pedros Gabriéis e Pedros Rafaéis, várias Steffanies com adendos, uma Sophia Taiane e uma Sophie Gabrielly, uma Tamara Helloá e um Teo Murilo. Uma Wendely Kelly que fechava a lista.

Daí já era o fim do primeiro horário e a diretora havia pedido que ela comparecesse à sala dos professores. Passou a tarefa para a criançada e encerrou a aula, dando uma passadinha rápida no banheiro, para se arrumar. Valdelicia, Narubia Carola, Maicou Jequison, Wendelly Kelly… Ela puxou um caderninho de dentro da bolsa e anotou os nomes incomuns e deixou-se rir um pouco. Um riso nervoso. Ninguém a havia preparado para aquilo. Começou a se perguntar porque as pessoas complicam os nomes dos filhos. Talvez pra compensar alguma coisa…

Deu uma conferida na aparência e foi para a sala de professores, onde foi apresentada à equipe.

– Bom dia, profe. Eu sou Adalgamar Darcilia, a diretora, mas pode me chamar de Dona Dagui. Essa é a profe Deusadete Sônia, a coordenadora pedagógica. Esses são os professores Hubler Roberto, de matemática, Lucila Laís, de português e Plácida Olinda, de geografia. A professora Danusa Cristiana, Jandira Samantha e o professor Herverton Anthony você conhecerá depois. A gente…

Enquanto a diretora passava um monte de informação sobre a escola e a equipe docente, a nova professora ligou sua cara de paisagem e entrou em modo desespero. Havia um padrão ali. Um padrão de novela mexicana.

Quando a diretora parou de falar, ela se desculpou e pediu licença, fingindo um mal estar. Foi até o banheiro, retirou o caderno e anotou os novos nomes. Contemplou-os por alguns momentos, ciente da mais pura implicância do destino.

No emprego anterior, conhecera as irmãs Valclécia e Vandécia; também conhecera Doraberta, Roris Neide e Agnusa Patrícia. Achava uma raridade. Ela sempre anotava tudo no caderninho, enquanto ria escondido no banheiro. Um dia uma nova paciente chegou ao consultório. Era Himenícia das Dores dos Prazeres. Ela não se conteve, gargalhou abertamente na cara de Himenícia, que estava à procura de um ginecologista. Uma ironia ginecológica que acabou levando-a à demissão. Nem ligou muito e riu-se por semanas.

Agora, tudo era diferente. Ela precisava trabalhar. Era questão de sobrevivência. Em vez de rir, desatou a chorar. Dúvidas dolorosas tomavam conta do seu coração. Como conseguiria manter a postura, sem rir na cara de ninguém? E pior que isso, como daria conta daquele trabalho se chamando apenas Ana da Silva?

Sobre a autora :

Nádia Coldebella é paranaense de espírito, corpo e coração. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá e mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, já fez um pouco de tudo dentro da área de Psicologia: atuou como psicóloga clínica, professora universitária, psicóloga organizacional e palestrante. Atualmente, é servidora pública, atuando como psicóloga judiciária. Escreve, desenha e pinta desde a infância e é na arte que reside sua alegria. Gosta de escrever sobre a vida, os dramas e os conflitos dos corações humanos. Também gosta de um pouco de sarcasmo em suas histórias. É mulher trabalhadora, esposa e mãe e como outras tantas nesse mundo, sonha em construir um mundo melhor, mais equilibrado e sensato, um lugar em que suas filhas possam sentir-se livres para ser aquilo que vieram ser.

 

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