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Coluna do Dia – O BBB NÃO ACABOU – Por Levy Brandão

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

Quantas pessoas você conhece que têm o hábito de compartilhar o seu dia a dia através das redes sociais? E quantas você conhece que dedicam algum (ou grande parte do) tempo do seu cotidiano para observar a vida dos outros nessas mesmas redes? Ah, você é uma delas?! Pois é, atualmente esse é um comportamento bastante comum, recorrente e reiterado.

“Aparecer”, “mostrar-se”, “ter a vida pessoal exposta”, ou ainda, “importar-se com a vida particular das outras pessoas”, “saber das intimidades alheias”, ter as mídias sociais como interface da vida diária faz cada vez mais parte das nossas sociabilidades. Fora de moda acaba sendo aquele ou aquela que foge a essa que já é “quase regra”.

A edição 2021 do reality show Big Brother Brasil acabou faz duas semanas, bateu recordes de audiência e engajamento dos expectadores, ou seja, números altíssimos de gente querendo saber dos desdobramentos das relações que eram mantidas pelos confinados daquela que foi por um tempo “a casa mais vigiada do Brasil”. Entendam bem, a mais vigiada, mas não a única!

O programa organizado com todo o status de ter uma grande emissora de TV como patrocinadora realmente findou mais uma temporada, mas a lógica do BBB permanece, pois sendo a nossa “sociedade do espetáculo”, o que não falta é gente querendo ser pop star ou que busca entreter-se consumindo a imagem, a vida formatada e projetada pela expectativa de público de uma infinidade de pessoas que literalmente “se vendem para o consumo simbólico” através das prateleiras virtuais que são as redes e mídias sociais.

Ter a sua imagem veiculada publicamente para muita, mas muita gente, mesmo, é hábito e até parece se dar como um grande fetiche nesses tempos de tamanha fluidez nas relações sociais, que faltam em concretude, permanência e estabilidade, na nossa época de carências tão à flor da pele, no qual tudo tem o potencial para se tornar ou efetivamente se torna “objeto a ser consumido”.

 

Se por um lado pessoas querem e sentem a necessidade compulsória de aparecer, por outro, e com tamanha intensidade elas são vigiadas, põem-se passivas de pressões, sensores e controles sociais por sobre as suas ações e vidas. São as duas dimensões desse peculiar e atual fenômeno, no jogo da vida no qual a “esfera pública” é cada vez mais tomada por aquela que já foi a “esfera privada”.

Não por acaso, uma das “ocupações” mais buscadas e até bastante rentável (se quem a pratica consegue prender para si a dispersa e fugidia atenção alheia), é a de influencer digital, que tem a sua competência medida através dos likes, “joinhas” ou curtidas que recebe a cada postagem que faz, ou pelo número de seguidores que conquista, pelos comentários nas suas publicações, repostagens e interações virtuais, acumulando assim na sua poupança do prestígio uma “moeda” de grandíssimo valor, que são os capitais sociais e simbólicos.

Hoje, pessoas de todas as idades, classes, cores, orientações, ideologias e gêneros, fazem-se influencers, não somente pelo desejo de lucrar monetizando em cima da sua visibilidade, revertendo os capitais que se associam ao prestígio adquirido em lucro monetário, dinheiro, renda, mas principalmente alimentando seus egos desejosos pela “fama” que conquista. Influenciadores, dizendo em bom português, porque realmente influenciam outras pessoas, ao passo que seguem também influenciados.

“Cada mergulho é um flash”, cada passeio, cada atividade, cada emoção, todo e qualquer tipo de opinião, a vida fragmentando-se em momentos que parecem gritar pedindo para que sejam capturados pelas câmeras de celulares, tudo que se faz pode virar ou vira post. Nesse contexto, será que não podemos dizer que viver nos tempos atuais de fato se tornou sinônimo de postar?

Essa é uma pergunta pertinente, não sei se para a maioria chega a ser inquietante. A resposta dela possivelmente poderemos achar observando os “carões”, “biquinhos”, nas poses calculistas e que buscam os melhores ângulos, nos filtros e efeitos, na grande quantidade de maquiagem usada nas caras nada limpas a serem fotografadas, nos cenários precisamente delimitados e recortados para expor “o que possuem de melhor”, no enquadramento milimétrico dos seres/objetos, no esforço dispendido para ser clicado sempre com a melhor roupa, para parecer que a sua rotina é o restaurante, a balada, o passeio, o luxuoso, em todo o investimento de energia que se dispende para fazer do trivial algo aparentemente interessante.

Encontraremos a resposta, se é que a buscamos, atentando para as imagens divulgadas a partir das mais variadas e inusitadas estratégias desse verdadeiro marketing pessoal (muitas vezes fruto de esforço orientado, racional e consciente, outras vezes mais espontâneas), que são projetadas tendo como principal vitrine as plataformas digitais. A virtualidade desses ambientes absorve “o real” no qual os atores e as atrizes sociais “se realizam” desempenhando seus papeis através das dedicadas performances que fazem no palco do nosso permanente BBB cotidiano.

 

Sobre o autor :

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca

 

6 Comentários
  1. Maria Eduarda Leite De Matos Diz

    Que texto pertinente. Parabéns, Levy pela excelente reflexão !

  2. Melyna Queiroz Diz

    👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

  3. Beatriz Diz

    Incríveeellll

  4. Cristian Luan Diz

    Parabéns pelo texto e pela maneira que tratou o tópico, realmente muito instigante. 👏👏

  5. Duda Diz

    Texto maravilhoso! Já quero mais! Quando sai o próximo?
    Sucesso, Levy!👏👏👏👏

  6. Flaviana Diz

    Excelente reflexão, de fato vivemos em uma sociedade alienada ao consumismo. E a exposição, pode ser algo positivo para uns e um veneno para outros. Na verdade as redes socis tem mais destruído, que construído. Mas fica A critério de cada pessoa o que melhor para si.

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