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Coluna do dia – Prof. Levy Brandão – A PANDEMIA NÃO É CAUSA, É EFEITO

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

A dor da perda de alguém próximo é incalculável. O valor de uma vida é imensurável. Milhares de brasileiros e brasileiras têm sentido essa dor recentemente (milhões de pessoas no mundo) e em um contexto de mais incertezas que certezas. Inúmeras outras vivenciam um cotidiano de medo e ansiedade, marcados pela angustiante expectativa de a qualquer momento serem acometidas pela COVID-19 e perderem o que possuem de mais precioso, sua própria vida ou a de alguém que estima, que ama.

Por mais que se possa pensar que essa situação de sofrimento, angústia, tristeza que se tem individual e coletivamente vivenciado há pouco mais de um ano é resultante de um fenômeno natural, causado pura e simplesmente pela pandemia da COVID-19, há que se perceber que não. A pandemia e tudo o que surge como seus desdobramentos são muito mais efeitos, consequências de todo um processo maior e complexo, que meramente causa última. A pandemia se dá como fenômeno social, político, econômico, cultural, antrópico e assim deve ser entendida.

Faz parte da dinâmica de produção das mentalidades humanas tomar como natural e normal (por mais que não seja) o que se torna comum e rotineiro. Essa é uma forma popular, algumas vezes política, de se construir narrativas e explicações sobre o dia a dia vivenciado, todavia, muitas vezes se esquece do processo que sedimentou, que levou determinada prática a se tornar rotineira. É o que se pode notar observando o termo “novo normal”, que veio à tona e foi bastante divulgado e usado para classificar a aparentemente “nova sociabilidade” disseminada a partir da pandemia, mas se posto à prova, pouco nos tem a dizer.

Problematizar e pensar criticamente sobre o cotidiano é tão importante quanto vive-lo, se o desejado é uma vida com cada vez mais consciência, compreensão e entendimento de si e do mundo do qual faz parte. Nesse caso a reflexão não só tem efeito terapêutico, mas também o efeito preventivo, pode trazer os gatilhos necessários para colocar muita gente em movimento na busca pelas mudanças necessárias nas suas próprias vidas e para a sociedade como um todo, que em verdade é uma construção coletiva.

Pensando um pouco já dá para se perceber que não é normal e nem tão pouco natural: o fato do mundo ser marcado por tão profundas desigualdades; da sociedade possuir tecnologia suficiente para produzir alimentos em quantidade muitas vezes maior que a necessária para alimentar o número total da sua população mundial e diariamente milhares de pessoas morrerem de fome em todo o mundo; da humanidade adotar práticas produtivas tão impactantes e degradantes para a natureza e a Terra, mesmo essa sendo a sua casa; de se ter posta uma ética tão individualista, mesmo os humanos tendo a necessidade fundamental da convivência; só para elencar algumas problemáticas questões que atingem cada um de nós (alguns de forma mais evidente, é bem verdade).

É normal, é natural o fato de somente algumas pessoas poderem manter o isolamento social nesses tempos pandêmicos, sendo essa a recomendação mais cabida como método de prevenção, enquanto outras tantas têm que se arriscar pelas ruas das suas cidades movidas pela necessidade de irem em busca do “ganha pão diário”? É normal, é natural o fato de no Brasil não se ter vacina para todo o seu povo? Ou, por exemplo, é normal, é natural alguns países já terem vacinada praticamente toda a sua população, ao passo que a vacinação no Brasil acontece em marcha lenta e à conta-gotas? É normal, natural se fazer festa por se tomar vacina, sendo vacina algo tão trivial, básico e direito de todas e todos os cidadãos?

Não, nada disso é natural ou normal. Cada um desses problemas é reflexo de processos pelos quais passamos, desdobramentos sociais, resultado de escolhas políticas, fruto de decisões econômicas, expressa as estruturas sociais contemporâneas, retrata traços culturais marcantes, mas totalmente deletérios do ponto de vista coletivo. E ainda, nada disso é novo, ou consequência direta da pandemia, ou seja, o fenômeno da pandemia da COVID-19 não só espelha, como também denuncia e projeta as piores mazelas que nos assolam.

Por mais que algumas narrativas possam estimular o conformismo e transmitir a ideia de normalidade, o que menos a humanidade precisa é tomar como verdadeiros os seus conteúdos ideológicos. Romper com o processo diário de banalização da morte e até de banalização da própria vida se faz mais que urgente e necessário. Toda vida humana tem valor, independente de classe, orientação, cor, nem tão pouco a natureza é algo menor e descartável para que seja usada de forma inconsciente e inconsequente.

A necessidade de ressignificação coletiva de valores e de reconfiguração de muitas das práticas humanas já está posta. A pandemia trouxe mais esta oportunidade, um evento que inicialmente pareceu distópico, mostrou-se reflexo de todo um processo maior, que precisa ser questionado e ainda mais, que urge por ser freado. Se, enquanto humanidade, não olharmos criticamente para o que temos vivido e não tomarmos a pandemia da COVID-19 como reflexo das nossas construções e escolhas coletivas, nós e o nosso modo de ser seguiremos sendo causa de muitas outras pandemias.

Nós fazemos a história e a faremos com muito mais propriedade se tivermos consciência de quem somos e dos nossos atos. Somos seres sociais e precisamos de uma ética que favoreça a coletividade. Somos seres políticos e devemos escolher e agir com responsabilidade. Somos seres econômicos e demandamos por produzir com sustentabilidade. Somos seres culturais e os sentidos que permeiam a nossa existência clamam por valorizar a própria vida, a diversidade. Somos seres humanos, nós somos as causas, nós produzimos (mas também somos) os efeitos, nós aprendemos e nós podemos fazer a mudança acontecer. Nós também somos os únicos que podem sonhar. Que sonhemos e pratiquemos uma humanidade outra!

 

Sobre o autor :

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca

 

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