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Coluna do dia – Abaixo o dia dos namorados! – Prof. Levy Brandão

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

No último sábado, dia 12 de junho, comemorou-se o dia dos namorados. O que mais se viu nas redes sociais foram posts de casais apaixonados, ostentando as benesses da sua relação, relatando aspectos positivos da sua trajetória em comum, declarando seu amor mútuo, fotos registrando momentos daquele dia tão especial, passeios, jantares, presentes, sorrisos, muita felicidade por ter alguém com quem compartilhar a sua vida, só alegrias. Não foi mesmo?!

Como denominar esse fenômeno? “Post – dia dos namorados feliz!”, que tal? Dentre tantos outros comportamentos de massa, esses parecem se somar e comporem mais um. Comportamento de massa no sentido de ser aquela ação que você pratica e que também está sendo realizada por uma infinidade de outras pessoas, a qual não demandou nenhuma reflexão prévia, que é feita meio que sem pensar a respeito, bem naquela linha de ser levado pela maré e acabar ficando à deriva. A correnteza leva alguém, que nem se dá conta de primeira, só segue boiando aleatoriamente até que se vê em meio a uma imensidão de água, sem rumo, sem direção.

Posto dessa forma, o dia dos namorados nem parece ser aquela data em que se celebra o amor, o amar, que serve para ressaltar o quanto colinho, beijar na boca, fazer amor, ter alguém com quem compartilhar afeto é muito bom. Acaba aparentando mais ser outro mecanismo para nos submeter a pressões sociais e nos enquadrar em determinado padrão, nesse caso, transmitindo a sensação de ser obrigatório estar com alguém, possuir um parceiro ou parceira afetiva, viver uma relação amorosa e ainda mais, para que a gente se sinta errado, diferente, mal, como se faltasse algo caso não tenha alguém assim na nossa vida (forçando a aparência de que não há outra alternativa, por exemplo, ser solteiro ou solteira e estar muito bem com isso) e também, não é somente ter alguém, mas ter alguém e viver “uma linda história de amor, daquelas que não tem espaço para problemas”.

Ainda mais, quantas foram as pessoas que ao lembrarem do fatídico dia dos namorados já se colocaram naquela angústia de ter que comprar o melhor, maior, mais caro dos presentes para o parceiro ou parceira? Muitas, né? Por que dar um presente material, um presente que se compra? Essa também parece ser quase uma regra, não qualquer uma, mas daquelas que possui enorme carga moral, bastante constrangedora, que faz com que a pessoa se sinta mal por não cumpri-la, a sensação é a de estar cometendo um pecado, tanto por não dar, como por não receber um presente, quer esteja em uma boa situação financeira e compatível com a prática de consumo ou não.

Mas afinal, dá para se mensurar o afeto, o amor pelo tamanho do presente material que você dá para outra pessoa? É possível materializarmos o afeto, o amor através do consumo e presenteando alguém? Essa parece ser a crença e a tentativa de muita gente. Enquanto essa lógica é reiterada, os shoppings, os comércios, os centros comerciais, as lojas físicas e on-line, os sites de venda, o mercado agradece e as pessoas, infelizmente, continuam carentes e “sofrentes”, sendo que “juntas”, já que estamos falando de dia dos namorados.

As contradições não terminam por aí. Apesar de todo o esforço desprendido para fazer desse dia um dia especial e diferenciado, não só temos esse dia para praticar o amar. Quantas pessoas realmente lembraram de se fazerem presentes, parceiras daquelas que gostam, dos seus namorados e namoradas em todos os outros dias do ano? Se alguém precisa de uma data em especial para demonstrar seu afeto, carinho, capacidade de cuidado, para explicitar seu amor por outra pessoa, talvez seja porque ela realmente não ama ou o tipo de vida que leva não lhe dá mais tempo para amar.

Foto de vida e amor perfeito em post nas redes sociais, não significam um relacionamento saudável e nem tão pouco uma vida significativa de verdade. Comprar, dar e receber presente tem mais a ver com uma efetiva reprodução da cultura do consumo que qualquer outra coisa. Precisar de uma data em especial para lembrar de outra pessoa, que compartilhar carinho, afeto, amor fazem bem, é um triste reflexo de como a nossa sociedade está com problemas.

Do jeito que está posto, não precisamos de uma data para comemorarmos o dia dos namorados, porque nós já não fazemos isso. Abaixo esse dia dos namorados! O que vimos e vivenciamos foi mais um dia em que nos alimentamos de ilusão através de um faz de conta nada pedagógico. Fica o alerta! Quando o amor e o amar forem prioridade na vida das pessoas, quando a nossa capacidade de nos enamorarmos uns pelos outros, pela vida, pela natureza se reavivar, aí sim teremos não só um, mas vários dias dos namorados, das namoradas, para se enamorar, porque se fará valer a tão necessária ideia que anuncia que “todo dia é dia de amar”.

 

 

Sobre o autor :

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca

 

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