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Coluna do prof. Levy Brandão – SE RELIGIÃO E GOSTO SE DISCUTEM, IMAGINA POLÍTICA!

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

É muito comum ouvirmos e para algumas pessoas até falar que “política não se discute”, tal qual “religião não se discute”, ou ainda “gosto não se discute”. Essas são compreensões que tomam o imaginário popular e servem de pressuposto para orientar as ações de muita gente, mas isso não quer dizer que de fato não possamos e não devamos refletir a respeito desses conteúdos e suas repercussões nas nossas vidas.

É interessante notar que tanto a política, como a religião e o gosto são aspectos da vida de qualquer pessoa, mas, mesmo assim, muita gente reitera a proibição sobre debatê-los. Por quê? Talvez, em um primeiro momento, guardadas as suas peculiaridades, sem muito se apropriar das temáticas, não seja difícil reproduzir a ideia de não problematizá-las, já que todos elas são campos que “envolvem paixões”, são complexos processos subjetivos e objetivos, refletem aspectos das identidades individuais e coletivas, dão sentido e marcam profundamente a existência das pessoas.

Abordá-los da forma inadequada pode transformar o que se pretendia debate em confusão. O problema não está necessariamente no que se pergunta, ou debate, mas como se pergunta e debate. Política, religião, gosto, tudo isso pode e até deve ser discutido. Por exemplo, não é salutar dizer para alguém que a crença dela em uma determinada entidade sobrenatural (Deus) é errada, ou sem sentido, isso pode gerar alguma mágoa ou rusga, mas, com certeza, perguntar sobre quando e como passou a cultivar essa fé que possui, ou como ela tem impactado a sua vida é bastante viável e poderá trazer uma boa, instrutiva e agradável conversa.

Da mesma forma, julgar um determinado gosto alheio também pode suscitar em desavença e até refletir uma postura preconceituosa, o que deve ser evitado e combatido. O caminho não é julgar o porquê, mas sim conversar sobre ele, buscando entendê-lo! Ainda falta para muita gente a prática do diálogo, do debate, também a tolerância ao questionamento em relação aos pressupostos dos seus pensamentos, o hábito de refletir sobre os fundamentos, o exercício de um pensar e de uma vida críticos.

No caso da política, negá-la, não se interessar por ela, não colocá-la como pauta importante (fundamental) nos traz grandes problemas, não só individuais, mas também coletivos. Por mais que exista quem não perceba e entenda, toda a nossa vida é perpassada pela política. Não debatê-la chega a ser um contrassenso, algumas vezes irracionalismo, já que ela tem a função de regular, organizar, mediar e até de criar condições para que mantenhamos as nossas relações e consigamos viver em sociedade.

Quer se tenha ou não consciência disto, somos seres políticos, todas as nossas relações são políticas, porque todas as nossas relações refletem jogos de interesse e poder. Não por acaso, é possível observarmos a História como a história da luta entre grupos humanos, ou apreendermos a sociedade como um grande campo de batalha onde a todo momento as pessoas disputam de forma individual ou coletiva a possibilidade de satisfação dos seus desejos, ou seja, concorrem pela materialização do poder.

Por um lado a política é o jogo de poder em si, por outro as medidas socialmente construídas e adotadas para mediar esse jogo, para que não sejamos todos como lobos a nos devorarmos enquanto competimos pela vida. Ou seja, ela está em uma conversa entre os pais e seus filhos, refletindo uma determinada autoridade constituída, uma hierarquização social entre esses agentes, vontades em disputa; como também, está na regulação que o Estado interpõe por sobre os seus cidadãos, estabelecendo direitos e prescrevendo deveres, propriamente limites para a convivência.

Não dá para uma pessoa abrir mão da política, porque a política está imbrincada na própria vida em sociedade, porque o viver humano é político. Mas, infelizmente e ainda pior, é que é possível abrir mão de se atentar para a dimensão política da vida e, em grande medida, quando se age dessa forma, corre-se o risco de estar abrindo mão da vida em si. É um cenário bastante problemático, por um lado temos números altíssimos de pessoas que agem sem qualquer interesse ou preocupação com a política, muitas até com certa repulsa ao tema; por outro, o próprio Estado muito parcamente atua, se é que o faz, para a educação política do seu povo.

A grosso modo, a religião reflete a espiritualidade de cada um; o gosto aponta como a cultura compõe a sua individualidade; a política é a conexão entre as pessoas de um determinado grupo, o fio condutor para a sua convivência e determina como coletivamente se organizarão para viver, se privilegiando a igualdade ou a desigualdade, se a opção é pela paz ou pela violência, se viverão para a garantia da vida ou provocando a morte.

A política é a grande causa coletiva e demanda atenção, cuidado, engajamento. Somos seres políticos e a nossa participação nos rumos da sociedade em que vivemos determina o quanto somos cidadãos. Se falta sensibilidade, consciência e educação para a política, devemos, muito mais que esperar, criar as condições necessárias para que isso aconteça. Façamos da maneira certa e não vamos abrir mão de exercitar o pensar, de praticar o debate (também se lembre do agir). Se a religião e o gosto são passíveis de discussão, imagina a política!

 

Sobre o autor :

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca

 

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