Notícias de Caruaru e Região

Crônica do Dia – PRIMEIRAS DRILHAS – Por Malude Maciel

Malude Maciel
Malude Maciel

Compulsando meus álbuns de fotos antigas, eis que encontro algo do tempo de adolescente no Colégio Sagrado Coração. Uma fotografia interessante porque me vejo com trajes matutos, dançando quadrilha com minha amiga de turma, Celymar Miranda que está vestida de padre. Como se sabe, naquela época só estudavam meninas naquele educandário e, era muito rara a presença de pessoas do sexo masculino, mesmo que fosse para ensinar (tínhamos poucos professores) ou mesmo formar um par numa brincadeira junina.

Era uma brincadeira tão inocente ali, no pátio do Colégio, onde as turmas se reuniam para cantar, dançar e distrair um pouco ao som de uma sanfona tocando ritmos regionais. Cada aluna se esmerava na indumentária característica dos festejos próprios da festa junina, mas como não havia homens, o jeito era a gente improvisar e acertar quem deveria fazer o papel do cavalheiro e o da dama. No meu caso, sempre gostava de representar uma matutinha arrumada e bonita com vestido estampado, flor nos cabelos e sandálias nos pés, porém outras colegas aceitavam vestirem-se de coronéis, marmanjos e usavam até batinas interpretando o padre que faria a cerimônia do casamento matuto, sendo que havia a divisão: uma era a noiva, outra o noivo, e assim por diante. Havia uma pureza tão grande que ninguém jamais poderia imaginar quaisquer pensamentos pecaminosos nesse “faz de conta” de casais. Simplesmente acontecia uma brincadeira sadia, ano após ano, no galpão interno da instituição, sem maiores amostrações.

Eu nem havia atinado para o fato de que muitos anos depois, surgiriam as chamadas: “drilhas” nas festas de São João em nossa cidade Caruaru. Com um desfile dos participantes do folguedo, apresentavam-se as “drilhas” que tinham as características de inversão: ora eram homens travestidos de mulheres, ora eram mulheres com roupas e acessórios masculinos. Lembro das: “gay-drilhas”, “macha-drilhas”e outras. Apareceram também as “baby-drilhas”, quando as crianças eram fantasiadas em trajes matutos e os pais pareciam divertirem-se bem mais que os inocentes. Houve até a “dog-drilha” onde levavam os cães de estimação para desfilar com aquelas pinturas e apetrechos. No entanto, não durou muito tempo esse divertimento que estava longe de apenas infantilidade pueril. Passou a se tornar comercial e alguns lucravam na venda dos ingressos e indumentárias, sendo assim perdeu a espontaneidade e o caráter sadio. Aconteceram abusos intoleráveis e por tudo isso e mais um pouco, terminaram as atividades que estavam mais para carnaval que para Festas de São João.

As danças e apresentações de artistas famosos concentraram-se no chamado: Pátio de Eventos por anos, até vir a pandemia que isolou todo mundo e acabou de vez com todas as formas de invencionices aproveitadas no período dos festejos tradicionais.

Pessoalmente, não apreciava as “drilhas”; brincadeira tem hora e estilo salutar.

 

Sobre a autora:

Maria de Lourdes Sousa Maciel se tornou “Malude” porque seus irmãos não sabiam dizer seu nome completo, como sua mãe insistia. Se tornou poetisa, escritora (Reminiscências de Malude em Prosa e Versos foi seu segundo livro publicado. O primeiro livro publicado intitula-se : No Meu Caminho.) é membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras – ACACCIL. Ocupa a Cadeira 15, que tem como patrono a Profa. Sinhazinha.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.