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Crônica do Dia – WALTER VICTOR – Por Malude Maciel

Malude Maciel
Malude Maciel

Meu irmão, sim. Nunca neguei.

Uma figura fora do padrão da sociedade.

Diferente do “normal”, mas quem é normal? O que é normal?

Era uma pessoa rejeitada bem mesmo antes de nascer. O médico obstetra da nossa mãe, Dr. Celso Cursino, havia avaliado que ele não viveria muito depois de um parto dificílimo. Mas, seu distúrbio mental teria sido sanado se tratado na infância, no entanto, seu problema real em toda sua existência tenha sido a falta de amor.

Lembro que fez a primeira comunhão e ia à igrejinha do Hospital São Sebastião nas missas de sábado à tarde, embora ficasse na parte de trás com complexo de inferioridade. Também estudou as primeiras letras no Berçário sendo levado ainda pequeno, pela Profa. Lúcia, que morava perto de nossa residência.

Walter, irmão de Malude Maciel, com Rebecca
Walter Victor com Rebecca, nos braços.

Walter ou Waltinho, como o chamava a titia Didi, era também apelidado de: “Major” depois de adulto; andando muito pelas ruas, era conhecido e conhecia todo mundo nessa cidade onde nasceu em: 12/09/1965. Tornou-se um andarilho, quase uma figura folclórica. Inteirava-se de todos os acontecimentos e queria dar as notícias em primeira mão.

Alguns indivíduos o desprezavam principalmente por andar mal vestido (embora tivesse roupa boa guardada) e desengonçado.

Ele gostava muito de crianças, brincava com elas e era carinhoso, porém uma ou outra tinha medo dele, outras, como Rebecca, têm fotos nos braços dele ainda pequena. Presenteava-as com pequenos mimos.

Participava das nossas festinhas familiares: natais, aniversários e datas importantes; no último aniversário dele, fomos (Marco e eu)a um restaurante que ele escolheu. Era o mínimo que deveríamos fazer.

Tinha temperamento difícil, não aceitava conselhos e ficava zangado facilmente.

Ele possuía habilidades de motorista, dirigia com facilidade embora sofresse da vista usando óculos de graus possantes e não soubesse ler nem escrever. Tinha medo de fazer um tratamento dentário, negando-se a ajeitar os dentes defeituosos. Ia ao médico (Dr. Demóstenes Veras) raramente, com muita insistência dos familiares, porém não tomava remédios corretamente. Sofria de diabetes, hipertensão e obesidade. A alimentação ninguém controlava.

Quando papai morreu, Walter ficou com o carro do velho, mas logo, logo, fez trocas de veículos e ficou prejudicado, terminando com uma motoca que só vive na oficina gastando dinheiro. Ele não tinha a menor noção financeira e foi muito lesado por isso, coitado. Há certas pessoas malévolas que atacam no lado mais fraco de sua presa. Ele perdeu a herança monetária que papai deixou pra ele, exatamente devido aos “amigos da onça”.

Embora com alguém em casa, morreu pela madrugada, sozinho em seu quarto em 22/5/2021 (quatro meses depois que mamãe se foi), de pneumonia aguda. Foi uma vítima em todos os sentidos.

Muitos lembrarão dele lamentando não terem dado atenção, mas é tarde demais.

No cemitério, à hora do seu enterro, estavam somente suas irmãs com seus primogênitos e seu cunhado que ficou lá fora temendo o vírus nessa pandemia.

Veio ao mundo pra sofrer, mas creio que teve uma missão divina: testar a caridade de caridosos de plantão e indivíduos que se acham bons ou perfeitos.

Adeus, Walter Victor. Eu sinto muito, muito mesmo.

 

Sobre a autora:

Maria de Lourdes Sousa Maciel se tornou “Malude” porque seus irmãos não sabiam dizer seu nome completo, como sua mãe insistia. Se tornou poetisa, escritora (Reminiscências de Malude em Prosa e Versos foi seu segundo livro publicado. O primeiro livro publicado intitula-se : No Meu Caminho.) é membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras – ACACCIL. Ocupa a Cadeira 15, que tem como patrono a Profa. Sinhazinha.

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