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PARA COMBATER A CRISE, JÁ TEMOS UM CAMINHO: SOCIOLOGIA NA CABEÇA! – Por Prof. Levy Brandão

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

Pandemia de COVID-19, degradação ambiental, fome, violência, práticas políticas duvidosas, individualismo extremado, falta de empatia e solidariedade, problemas econômicos (para não dizer crise do capital), alienação e negacionismo, intolerância… Muitas são as questões que podem ser listadas para apontar e justificar a ideia de estarmos vivenciando uma profunda crise humana. Para muitos intelectuais, é o que indica o nosso atual momento.

Em meio a tudo isso, vale lembrar algo mais: nós, através das nossas ações, somos a força motriz da História. Se nos trouxemos até aqui, muito provavelmente podemos nos levar para outro lugar! Podemos SIM! Mas isso não quer dizer que o faremos. Para tanto, para conseguirmos reconduzir os rumos da nossa existência coletiva e também as individuais, precisamos, antes de mais nada, identificar e compreender quais os fatores, como se combinam, quais as suas origens, a que estão associadas… Por que estamos em crise?

Não são questões simplórias, elas não possuem respostas triviais e nem tão pouco as suas soluções são daquelas que não demandam esforços para serem adotadas. A sociedade é como um quebra-cabeças dos mais complexos e que possui uma infinidade de peças cheias de detalhes a serem observados e analisados para que se possa perceber as suas conexões quase invisíveis. Para desvendá-las precisamos ter “em mãos” o instrumental adequado. Ele existe e está disponível para que o usemos.

A Sociologia é uma das “ferramentas” mais potentes que existem e estão ao nosso dispor para empregarmos na tarefa da busca do entendimento necessário. Bom que está posta a indicação para que se ensine o pensar sociológico nas escolas básicas, não é matéria somente para quem se pretende cientista, todavia, há muita resistência para que efetivamente aconteça, para que essa prática seja presente no cotidiano de cada vez mais pessoas.

Um dos obstáculos é a própria alienação, que favorece aquele pensar pré-programado que incutem na nossa cabeça, que faz com que tomemos como correto um caminho que não passa de ilusão, que faz com que enxerguemos como verdadeira uma “realidade” totalmente invertida, aquele conteúdo que promete liberdade, mas que só corrobora para que nos mantenhamos aprisionados.

Sobram pretextos para que coloquemos a Sociologia como uma prática nas nossas vidas, trazer “liberdade para dentro das nossas cabeças” (1) combatendo a alienação é somente uma dessas justificativas. Listarei dez razões para que busquemos desenvolver a nossa capacidade de imaginar e pensar o mundo sociologicamente, dez motivos para que tenhamos a Sociologia na cabeça. Um já foi, vamos aos outros nove porquês!

Já escutaram ou já foram tachados de “Maria vai com as outras ou João vai com os outros”? “Ter opinião própria” (2) é uma outra razão para que estudemos Sociologia. Mas não é só isso, não se trata de desenvolver somente a capacidade de opinar, mas a de fazer isso criticamente, a partir de um olhar analítico, questionador, fundamentado, problematizador sobre as mais variadas questões da vida.

Não quero dizer que todo mundo deve ser sociólogo, não é essa a questão, até porque a Sociologia é, dentre vários existentes, um ramo acadêmico e profissional bastante especializado, que demanda formação universitária e uma permanente caminhada intelectual e formativa, que não acaba nunca, tendo em vista que a sociedade é dinâmica, está em contínua transformação e que o desafio de compreendê-la se renova diariamente.

A Sociologia é uma Ciência e tem como foco as relações humanas e tudo o que se desdobra a partir dessas relações, ou seja, ela se dedica na produção de conhecimento sobre a vida em sociedade, sobre o que somos enquanto seres sociais. São variados os temas estudados pelos sociólogos, por exemplo, criminalidade, corrupção, formas de poder, movimentos sociais, pobreza, relacionamentos afetivos, consumo, educação, meios de comunicação etc. O que estou evidenciando é que beber na fonte dessa Ciência é indicado para todo mundo com o mínimo de capacidade de articulação cognitiva, é algo que faz bem para si próprio e para a coletividade que integra, porque estará tendo acesso a toda uma ampla gama de informações sobre as repercussões do que é ser humano.

O exercício desse pensar funciona como uma “vitamina para o intelecto” (3), porque contribui, fortalece, facilita e se faz como aperfeiçoamento de faculdades que temos todo o potencial para desenvolver, mas que nem sempre o fazemos, pois, muitas vezes, falta-nos a energia, o gás necessário para que ponhamos em prática. Os porquês estão aí, apesar de ser comum não os concebermos, são muitos os problemas humanos postos, mas o impulso, o empurrão para que busquemos entendê-los e solucioná-los nem sempre pulsam em nós. Praticando a Sociologia nós desenvolvemos certa ânsia pelo compreender, o que falta para muita gente.

Contribui para que exercitemos o pensar complexo, crítico, com a capacidade de articular ideias, várias questões e fatores, de olhar tanto para a totalidade, como para cada uma das partes, como se colocássemos a sociedade ao avesso, propriamente, ela nos favorece a tão necessária “visão além do alcance” (4), porque se propõe sempre a ir além da superficialidade do que está posto, é para além do senso comum, é daquelas formas de pensar que olha para o que todo mundo vê, mas que busca o que quase ninguém conseguiu ou se propôs a enxergar, porque não se contenta com as respostas de antemão.

Por exemplo, possuímos uma história particular, individual, única, porque somos seres detentores de individualidades forjadas de modos muito peculiares. Também somos seres sociais, políticos, que partilhamos e vivenciamos conjuntamente uma História coletiva. Somos biografias que se escrevem dentro da História. Compreender como nos conectamos uns aos outros é um dos tantos objetivos da Sociologia. “Perceber as conexões” (5) é um dos seus grandes porquês e para explicá-las ela analisa os problemas como processos, conjunturalmente, como multifacetados e repleto de variáveis.

Ela também nos favorece certa capacidade de perceber que as nossas relações são relações de poder, que a vida em sociedade é constantemente marcada por disputas de interesses e que reflete toda uma permanente luta pela possibilidade de satisfação, de realização de desejos, mesmo que isso se faça em detrimento das vontades alheias. A vida se faz como que em um grande campo de batalha, no qual individualmente, mas também coletivamente, como grupos e classes participamos de verdadeiros combates, jogos pela detenção dos meios e recursos necessários para que consigamos prevalecer.

Para que não sejamos manipulados, subjugados, feitos de objetos, ou que vivamos uma vida privada de direitos é que servem muitos dos conteúdos produzidos pela Ciência em questão. Nesse sentido, ela e o conhecimento que produz funcionam como verdadeiras armas para que “estejamos sempre prontos para o combate” (6) e “joguemos melhor esses jogos” (7) aos quais inevitavelmente somos submetidos.

Por que gostamos do que gostamos? Por que desejamos o que desejamos? Por que agimos como agimos? Por que pensamos o que pensamos? Por que somos o que somos? A Sociologia também nos ajuda a alcançar as respostas dessas questões, que têm a ver com o fato de sermos seres culturais, com os aprendizados e socializações pelas quais passamos ao longo das nossas vidas. É nesse contexto que desenvolvemos a capacidade de nos percebermos culturalmente, logo de compreensão individual e das alteridades que nos compõem.

“Entrar nas cabeças dos outros” (8), a capacidade de “se colocar no lugar dos outros” (9) e o “entendimento sobre si mesmos” (10), dito de outra forma, a possibilidade de saber o que motiva as ações e formas de ser das outras pessoas e as nossas, de apreender os processos de gênese social pelos quais passamos, como também de enfrentar o problema dos preconceitos, da nossa tamanha falta de empatia e solidariedade, caminhos para se conquistar tudo isso podem ser encontrados na prática da Sociologia.

Se queremos realmente combater a crise humana na qual estamos instalados e queremos melhorar enquanto humanidade caminhando em outra direção, precisamos despertar sobre a necessidade de não somente viver, como se isso fosse algo automático. Se o que desejamos é ter consciência sobre o que pensamos, fazemos e somos, ou seja, sobre o complexo processo que simplificando chamamos de “viver em sociedade”, já temos, pelo menos, um caminho: SOCIOLOGIA NA CABEÇA! Se vamos seguir ou não, essa é uma outra história.

 

Sobre o autor :

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca

 

1 comentário
  1. Maria Eduarda Leite De Matos Diz

    Prof, arrasa em seus questionamentos. Precisamos pensar mais. Por isso que gosto tanto de sociologia e filosofia, pois elas nos ensina pensar.

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