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Coluna Prof. Levy Brandão – Em tempos líquidos

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

Não é menos, nem mais moderna, tampouco pós-moderna, a atualidade expressa uma diversa modernidade, que muito bem, por metáfora é classifica como líquida.

Nova e diferente da antiga modernidade por negá-la em dois aspectos paradigmáticos, primeiro: está posto em declínio a crença na existência de um fim histórico onde tudo está devidamente encaixado, sem contradições, onde as perguntas encontraram suas melhores e completas respostas, a ordem em perfeição.

Segundo: o que era da ordem da sociedade, da coletividade, da razão humana, desintegrando-se a cidadania foi fragmentado, desregulamentado, transladado para o âmbito do privado, é agora responsabilidade íntima, auto-afirmada no indivíduo, extremado em sua individualidade, sendo essa fatalista, e ele desengajado, alheio, indiferente, em irremediável solidão.

Líquida pois é fluida, que muda constantemente de forma, que só pode ser apreendida momentaneamente, na instantaneidade. Móvel. Inconstante. Os líquidos “[…] diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho”, “escorrem”, “vazam” (BAUMAN, 2001, p. 8). Tal modernidade é resultado do “derretimento” radical dos sólidos grilhões que limitavam a liberdade individual, que demarcavam claramente os limites do agir.

Essa flexibilidade atinge os laços humanos, desata-os, desintegra-os, o amor passa a ser contraditoriamente líquido, fincar raízes apresenta-se contraproducente em uma lógica nômada de vida, líquida, flexibilizada e dinâmica na onda dos novos trabalhos; onde as pessoas não mais casam, apenas coabitam, pois é bem mais fácil desta maneira para já desprendidos, largarem-se.

O poder é extraterritorial; as guerras não presenciais; a política se dá em um contexto onde o público é cada vez mais tomado pelo privado; o consumo uma forma de exorcismo vazio, que promove satisfações evanescentes, em uma cada vez mais eterna incompletude, que flutua na impossibilidade, na qual o descartável, o leve, o portátil são sinônimos de progresso; com a produção para a obsolescência imediata, substituindo o universo dos duráveis.

O capitalismo se flexibilizou. “Só o desejar é desejável” (Ibidem, p. 103) e o êxtase, esse está no experimentar, mesmo que por um momento fugaz.

Em meio a inúmeros mal-estares, as vidas se despedaçam, possuir uma identidade só pode existir como projeto inacabado e até os medos, para permanecerem causando horror, são líquidos.

Faltam perspectivas, faltam referências, líderes, eles estão tão leves que voam no ar, fluem e passam antes mesmo de serem realmente percebidos, sendo por vezes, vazios de conteúdo comunal; a disciplina é transmitida por meios da mesma forma fluidos, e o espetáculo delimita o falseado livre-arbítrio.

Tudo, absolutamente tudo é temporário. Convicções, crenças, estilos de vida, nossas instituições, hábitos, costumes, é a era das modas, do instantâneo, sempre na superficialidade, vivemos em tempos líquidos, infelizmente ou felizmente, torcendo para que não se evaporem, para não desmancharmos no ar.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, importante pensador do contemporâneo faleceu aos 92 anos em 2017, mas as suas ideias permanecem vivas e denunciam vários dos nossos atuais problemas. Fez parte da sua estratégia de superação dessa condição humana compreendê-la, desvelá-la, para explicá-la e definitivamente transgredi-la. Esse é o convite que a sua obra nos faz! Compreender o que somos e buscar melhorar-nos, porque, apesar de tudo o que está posto, é possível viver de modo diferente, em conjunto, fortalecendo nossos laços e superar a miséria humana instalada.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

 

 

[su_box title=” Sobre o autor :” box_color=”#12a675″]

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca[/su_box]

 

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