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Coluna Prof. Levy Brandão: “QUERER É PODER” – ENTRE A ILUSÃO E O PRIVILÉGIO

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

“Querer é poder”! Já ouviu essa frase?! É uma daquelas falas muito comuns, que são evocadas o tempo todo para nos motivar, que tenta nos fazer crer que por mais complicada que seja uma determinada situação que enfrentamos, basta querermos e nos dedicarmos que a venceremos. Será mesmo?

Não quero ser “corta-baratos”, mas com grande frequência as coisas não acontecem tal qual a nossa vontade. “Querer é poder” é uma expressão genérica, que se contraposta à realidade concreta não nos diz muita coisa, podendo, de verdade, até ser mais uma daquelas pílulas de senso comum do mais irrefletido e que diariamente entorpence muita gente.

Problematizando a ideia é fácil percebermos que: 1. nem sempre a quantidade de querer que há dentro de nós é suficiente para nos levar a um determinado e esperado agir; 2. fomos educados e educadas de maneiras distintas, em contextos diferentes, possuímos trajetórias peculiares, consequentemente as nossas capacidades de querer não são as mesmas; 3. as condições nas quais vivemos podem ser desfavoráveis à realização do desejo; 4. querer realizar, conquistar ou possuir algo não é garantia suficiente para conseguí-lo; 5. o que se deseja pode não ser realizável, palpável.

Mas por que tanta gente acredita nesse enunciado? Ou por que ele é tão recorrente? Infelizmente, a falta de um olhar mais crítico sobre o mundo faz com que muita coisa que poderia ser óbvia acabe nem sendo percebida.

Questionar tal frase feita não tem a ver com negar a importância de se acreditar, ou de se ter esperança. Sonhar, desejar e querer são importantíssimos, fundamentais, são alimentos vitais para as nossas subjetividades, para quem somos e funcionam como combustíveis para o nosso viver. Mas motivação é bem diferente de ilusão.

Trazer essa reflexão se liga à necessidade de compreendermos que por trás do que acontece no nosso dia a dia, ou de ideias expressamente compartilhadas há sempre muitos desdobramentos, variáveis, aspectos, questões que podem passar despercebidas mesmo sendo determinantes para os rumos do nosso existir.

“Querer é poder” é uma ideia que pode e coloca muita gente em um ciclo de sofrimento e exploração que em nada ou quase nada lhe acrescenta, ao passo que muito alimenta e ajuda a reproduzir a nossa sociedade. Esse tipo de ilusão é um dos pilares que mantém de pé esse nosso modo de organização social e de vida, extremamente desigual e excludente, fomentado pelo lucro e pelo consumo, totalmente competitivo e falsamente meritocrático.

Quantas pessoas acordam, passam todo o dia em uma vida que mais parece uma batalha de tão sacrificante que é e dormem exaustas movidas pela ilusão de que “se realmente quiserem e se esforçarem vão chegar lá”? Incontáveis!

Essa é a rotina de muita gente, um trabalho duro que não dará os frutos sonhados, por mais que dia após dia se empenhe cada vez mais para alcançá-los. Não irão conquistar porque jamais o propósito foi esse. Não falo do propósito da pessoa que luta, mas sim “do propósito do mundo em que ela vive”. Assim, a motivação que os move e as ações praticadas na busca do desejado são fundamentadas em algo alheio, que vem de fora e obscuramente serve a outro.

E não termina por aí, pois além de atuar na busca de um desejo que tem fundamentos alheios, a responsabilidade de não conquistá-lo recai sobre o próprio indivíduo, que sofre por crer que seu esforço não foi suficiente, que o insucesso foi por falta de competência para alcançá-lo e que essa é pura e simplesmente sua culpa. Essa é a causa de muitas depressões, ansiedades e outras tantas doenças somatizadas numa sociedade que parece projetada para nos iludir e cansar.

Tenho certeza que a grande maioria das pessoas deseja uma vida plena, rica, cheia de realizações, abundante em conquistas como prega a cultura hegemônica. Mas em uma sociedade na qual nem todo mundo tem as mesmas oportunidades, com uma grande parcela chegando a não ter nenhuma, nem tão pouco um adequado acesso aos bens da civilização, vivendo em precariedade e passando necessidades básicas, esse poder aqui abordado acaba sendo algo que só acontece para pouquíssima gente.

Se a realidade já nos nega a possibilidade de afirmar que sem sombra de dúvidas o querer é para todos e todas, o que dizer do poder? Que no máximo é um privilégio!

 

 

[su_box title=” Sobre o autor :” box_color=”#12a675″]

Levy Brandão é Sociólogo e Educador, Mestre em Sociologia, com especializações na área da Educação e Bacharel em Ciências Sociais. É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Alagoas – IFAL desde 2014. Atua na docência há alguns anos, tanto na Educação Básica como na Educação Superior. Também é Palestrante e Consultor na área da Educação. Instagram: @sociologianacabeca[/su_box]

 

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