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A BATALHA DE 7 DE SETEMBRO – Por professor Levy Brandão

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

O povo nas ruas dá a tônica da política. Esse é um artifício importante do jogo democrático, meio para se pressionar por mudanças ou apoiar as práticas de um dado governo; o protesto, as manifestações populares de rua são mais um exemplo de que o exercício cidadão não começa e nem tão pouco termina no ato de votar ou eleger um representante para ocupar cargo público eletivo. Cidadania precisa ser sempre, ser todo dia.

Disputam-se narrativas, busca-se maior aquiescência da opinião pública e ampliar o número de apoiadores de uma determinada causa, é espaço para a denúncia de problemas e reivindicações diversas ou para a exposição de perspectivas, a política opera a partir de crenças e ideais, sendo um verdadeiro jogo de interesses e em grande medida quem é mais hábil em convencer amplia suas chances de vencer conquistando maior adesão às causas e projetos que defende, porque política não se faz a sós.

No dia 7 de setembro de 1822 D. Pedro declarou a independência do Brasil do domínio imperial de Portugal e desde então, ano após ano, é comemorada a data como um grande marco nacional, celebrando-se a soberania país. Para o dia de hoje, a promessa que temos não é a dos tradicionais desfiles de tropas das forças armadas e das forças auxiliares da segurança pública que normalmente acontecem em todos os Estados da Federação e no Distrito Federal.

Os costumeiros desfiles marciais do dia 07 de setembro não estarão em foco hoje. Mas sim as carreatas, as passeatas, os protestos e as manifestações já anunciadas há alguns dias e organizadas, por um lado, a favor daquele que tem ocupado o cargo de presidente do país, no intuito de dar relevo aos seus controversos discursos, e, por outro, contra ele e as suas ações, posturas públicas, “projeto político” e o atual cenário social do país, que tem colocado em dificuldade muitos brasileiros e brasileiras.

Mesmo antes de eleito para o cargo de Presidente da República brasileiro, Jair Bolsonaro já acionava de forma corriqueira discursos contra a lógica democrática e republicana de se fazer política e assim ele segue até hoje. Por mais contraditórias que sejam as suas falas e muitas das suas atitudes públicas e apesar de diariamente crescer a sua impopularidade, parece ser essa a sua forma de fazer política, de certo modo, podemos dizer que ele se alimenta da “antipolítica”.

Assim se projetou para o poder e da mesma maneira tenta se manter nele. Com um discurso segregacionista, que nega a dignidade a muitas pessoas e se faz carregado de preconceitos, até então mais enrustidos, ou com falas que desmoralizam a política, reiterando de maneira superficial uma tal corrupção generalizada, ou ainda, desacreditando as próprias instituições do Estado, os outros poderes, Legislativo e Judiciário, agora responsáveis pela sua falta de governabilidade ou pela crise política brasileira.

Ao passo que nega todo o resto, só ele bom, capaz, tem uma vida de retidão e verdadeiramente dedicada ao bem público. Será mesmo? Não faltam evidências de que a verdade não é exatamente essa. Todavia ele continua tendo ressonância e conseguindo congregar muitas pessoas que desacreditavam da política, outras tantas que já traziam em suas mentes e corações ideais extremistas e têm encontrado legitimidade na figura pública desse “presidente” e inúmeros outras desavisadas que mesmo sem terem muita consciência do que é política não deixam de decisivamente contribuir para os seus desdobramentos.

Muitos desses tomarão as ruas no dia de hoje entoando o brado de “ditadura já”, de “abaixo ao STF” e alguns outros gritos em favor de “uma tal liberdade” que de um ponto de vista mais crítico não fazem sentido algo. Bolsonaro, contrariando às expectativas políticas internacionais e se isolando nesse contexto de relações exteriores, põe o mundo em alerta ao conclamar os militares das forças armadas do nosso país e das nossas forças auxiliares a não somente desfilarem na tradicional celebração do 07 de setembro (em algumas localidades do país já canceladas pelos seus governadores e prefeitos), mas a marcharem para a derrubada de outras figuras políticas e a manutenção de “uma verdadeira ordem”, a qual só existe no plano das suas conturbadas e fantasiosas ideias.

No contraponto ao movimento impulsionado por aquele que parece mais ser um agitador de torcida, que um presidente da república, muitas outras pessoas levarão às ruas do país o grito de “democracia sim”, caminhando e cantando na luta pela garantia e ampliação de direitos, que diuturnamente sofrem com o reforço de uma agenda de Estado cada vez mais mínimo, essa que não é consequência somente de ações encabeçadas por Bolsonaro e sua equipe direta, mas por muitos outros governantes que se alinham com as demandas neoliberais.

Não sei como você se posiciona nessa arena de disputas, mas a verdade é que o nosso país não anda muito bem das pernas do ponto de vista econômico e nem tão pouco do social, além de todo o cenário político conturbado e tudo isso é reflexo das tomadas de decisão encabeçadas pelos governantes em exercício, que em grandíssima medida favorecem o grande capital e deixam de lado boa parte do povo.

Por mais que seja direito a liberdade de expressão, de manifestação e de ir e vir, não é cabido acionar o discurso do ódio à pessoa humana, de morte aos que não concordam ou são diferentes de você. Tão pouco é aceito atentar contra as instituições que garantem a estabilidade do “estado democrático de direito”, já que o que se espera nesse contexto é que as disputas se façam pelo diálogo e se afastem cada vez mais da violência, de qualquer ação que lembre a barbárie.

Bolsonaro chegou ao poder por vias democráticas, mas parece sentir prazer em tudo o que nega a democracia ou o republicanismo, ao menos é esse o seu discurso, mais barulhento que efetivo materialmente, mas mesmo assim perigoso. Que a batalha que se anuncia para hoje, 7 de setembro, seja mais de ideias que qualquer outra coisa e que fale mais alta a voz daqueles e daquelas que sofrem com os altos preços dos alimentos, dos combustíveis, com a falta de emprego e oportunidades, com a diminuição do seu poder de compra, que precisam da educação pública e a percebem em risco, ou que não concordam com a política de redução dos direitos sociais em voga. Que fale mais alto o grito dos que têm sido sistematicamente excluídos, para que realmente prevaleça o bem-estar social.

 

 

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