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Artigo: Uma viagem à esperança – Por Ana Dubeux

"Depois de ruminar tristeza e desalento pela situação do Brasil, entendi que voltar às origens e olhar para um presente bonito pode ser uma forma de ainda amar e ter esperanças"

A Usina Santa Terezinha e o jardim botânico (Foto: Rego Barros)
A Usina Santa Terezinha e o jardim botânico (Foto: Rego Barros)

Tomei um fôlego de coragem e embarquei de mala e cuia para uma viagem, a primeira após a fatídica maratona pandêmica, num trajeto que ainda parece sem linha de chegada. Aceitei um convite para ir até Pernambuco, meu estado natal, e percorri um trajeto de memórias profundas e antigas, onde pude ver beleza, natureza e arte brotando da terra.

Voltei no tempo. Me vi correndo na Utinga Leão, usina de açúcar onde meus avós, pais e tios trabalharam, em Alagoas. Não estava lá de fato. Mas na visita guiada à Usina Santa Terezinha, na cidade de Água Preta, Mata Sul de Pernambuco, transformada no projeto Usina de Arte, que conecta arte, cultura e meio ambiente, criando um museu de arte contemporânea ao ar livre, dentro de um Parque Artístico Botânico.

O parque é uma preciosidade, resultado de um trabalho de reflorestamento, com cerca de 10 mil plantas de mais de 600 espécies, em uma área de mais de 33 hectares, irrigada também por ações de desenvolvimento que geram renda e valor para a comunidade de 6 mil moradores no entorno do projeto. Com escola de música, biblioteca e laboratório de tecnologia. É também onde está a obra Diva, escultura em forma de vagina, de Juliana Notari, que causou polêmica nas redes sociais.

Nesse lugar cercado de história, verde e arte, descobri um Brasil que dá certo, que consegue unir nossas belezas naturais e transformar ruínas em pontos de cultura, conhecimento e preservação. Ali, onde passado e presente se cruzam, interagem e resultam na reinvenção da realidade local para melhor, eu retomei o fôlego tragado por tantos meses de convivência com o vírus da morte e renasci nas lembranças e novidades.

Convidada a um banquete telúrico, resultante de milhões de anos de formação da Terra, que nos convida a contemplar nossas origens, conheci o trabalho da artista paulista Denise Milan. Na instalação, montada em torno de uma mesa, foram servidos pratos elaborados a partir de ingredientes “da terra”, como cristal, pirita, amonita, ouro, prata e bronze, apresentados em diversas texturas.

Depois de meses ruminando tristeza e desalento pela situação do Brasil, entendi que voltar às origens, resgatar as lembranças e olhar para um presente bonito pode ser uma forma de ainda amar e ter esperanças no nosso país.

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