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Coluna – Prof. Levy Brandão: PAULO FREIRE VIVE E É TOTALMENTE NECESSÁRIO

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

100 anos de Paulo Freire, além de celebrar a vida e a obra desse que nos deixou um verdadeiro legado para melhor pensarmos a educação e o nosso papel enquanto sujeitos da história, seguindo o seu exemplo, essa data também nos convida a sonharmos, esperançarmos e agirmos na construção de uma realidade outra, na busca pela superação dos tantos problemas que assolam a sociedade brasileira e mundial atualmente, como as fakenews, os negacionismos e obscurantismos, as tantas intolerâncias e autoritarismos, os vários ataques à democracia e aos direitos dos cidadãos do nosso país e pelo mundo, as desigualdades e os seus negativos desdobramentos.

Freire foi perseguido, preso e exilado do Brasil por ser considerado subversivo por aqueles que ocuparam o governo do país durante o período da ditadura militar (1964-985). Em participação no programa Matéria Prima, apresentado por Serginho Groisman na TV Cultura ainda em 1989, disse-nos algo que vale rememorar: “O Brasil foi inventado autoritariamente. Mas os militares deram uma indiscutível contribuição ao autoritarismo, quer dizer, eles ajudaram muito a crescer o autoritarismo, a violência, a mentira. Foi uma coisa trágica isso. Eu acho que esse período de ditadura no Brasil, Deus queira, agora diria eu, que jamais se reinvente. Que nós todos tomemos um tal gosto pela liberdade, um tal gosto pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela denúncia, pelo anúncio, que jamais seja possível no Brasil a gente voltar àquela experiência do pesado silêncio sobre nós”.

Até hoje sua memória e legado são atacados porque a sua vida se deu no projeto de defender uma educação universal, inclusiva e libertária, uma sociedade de pessoas emancipadas, autônomas, conscientes de si, do seu papel no mundo, da sociedade em que vivem, por ser contra toda e qualquer forma de opressão humana, representante da paz e do diálogo como os melhores caminhos, viveu uma vida de amor e dedicação às pessoas, a valorizá-las e elevá-las, dignificá-las, a impulsioná-las no seu processo incessante de construção de si através da educação, que na sua ótica deveria ser sempre progressista e problematizadora, ou seja, capaz de favorecer o pensar crítico, a leitura do mundo e a cidadania.

Paulo Freire
Paulo Freire

Filósofo da educação, propôs repensar a prática educativa e levá-la para além da perspectiva tradicional de educação, escola e formação humana. Educar não é transmitir conhecimentos, não é tomar as pessoas como receptáculos vazios de informações. Buscando contrapor e superar a lógica bancária de educação, a proposta daquele que se fez Patrono da Educação Brasileira é (porque suas ideias se mantêm vivas e são bastante atuais e ainda necessárias) um convite ao conhecer pelos alunos e não somente à memorização de conteúdos, é um chamamento ao diálogo e ao compartilhamento de suas vivências, é uma proposta para que os estudantes e as estudantes se ponham como protagonistas e sujeitos do processo, é um esquema que se faz horizontalizado partindo da ideia que a educação deve ser sempre uma troca, afinal “as pessoas se educam em comunhão mediatizadas pelo mundo” (Pedagogia do Oprimido).

Foi seguindo essa linha que conseguiu, em uma das suas exitosas ações no mundo, alfabetizar cerca de 300 trabalhadores e trabalhadoras rurais em apenas 40 horas de trocas culturais e trabalho junto com eles e elas. A proposta educacional desenvolvida por Freire considera os saberes prévios das pessoas em processo de desenvolvimento educacional como ponto de partida para quaisquer ações de ensino-aprendizagem ou aprendizagem-ensino, tendo nas vivências trazidas na bagagem cultural dos envolvidos e das envolvidas ricas fontes de saber e meio propositivo e gerador de temas a serem trabalhados na ação formativa.

Para ele a educação não é neutra, é um ato político, tem uma orientação ética, nesse sentido sempre se colocou ao lado dos “condenados da Terra”, dos “esfarrapados do mundo”, dos excluídos e excluídas, da classe trabalhadora, daqueles e daquelas diuturnamente subjugados no sistema opressor do capital. Sua proposta de educação é popular e verdadeiramente pensada como sendo do povo, para o povo e com o povo. Voltada para a liberdade, para o combate permanente das formas de alienação, de injustiças e discriminações de raça, gênero e classe.

Paulo Freire recebeu inúmeros títulos de Doutor Honoris Causa em Universidades do Brasil e do exterior, chegou a lecionar em algumas das instituições de ensino mais prestigiadas do mundo, como Havard University nos Estados Unidos, recebeu da UNESCO em 1986 o prêmio de “Educação para a Paz”, sua obra Pedagogia do Oprimido é a terceira mais citada dentre as publicações acadêmicas de ciências sociais em todo o mundo, escreveu mais de vinte livros, amou profundamente a natureza, os animais, ou seres humanos e a vida. Faleceu em maio de 1997, mas continua vivo e totalmente necessário, porque da sua práxis emana a certeza de que devemos alimentar a utopia de uma sociedade outra e em cada um dos nossos dias viver para realizá-la. Viva à educação libertadora, muitos vivas ao sempre humilde, mas grandioso Paulo Freire!

 

 

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