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QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella – escritora e artista plástico

 

Certo final de tarde de uma quinta-feira qualquer, uma mulher comum entrou em seu carro popular, para ir ao supermercado costumeiro fazer as compras triviais de itens banais. Era só mais um dia como os outros, na sua vida desimportante, habituada que estava com a mesmice do cotidiano.

 

Até virar a esquina e acessar uma avenida.

 

Pouco andou e precisou diminuir a velocidade, pois o carro da polícia militar estava parado em meio a uma das vias.

 

As portas abertas, escancaradas.

 

Não se via coisa assim todo dia, então ela diminuiu ainda mais a velocidade para capturar bem, em sua mente, tudo o que dali para frente veria.

 

Um dos policiais estava agachado atrás do carro, como num filme, de arma empunhada e extremamente atento ao que estava se desenrolando.

 

O outro estava em frente ao carro, pernas abertas, um braço estendido perpendicularmente em frente ao corpo, de mãos estendidas e dedos abertos.

 

A mão parecia sinalizar algo nervosamente, enquanto a outra, mais nervosa ainda, ia e voltava de uma arma bem aconchegada no coldre preso à cintura. A mão decidiu-se e o policial empunhou a arma, braços bem esticados, pupilas dilatadas, faces coradas, pernas movimentando-se pra lá e pra cá.

 

Ela diminuiu mais ainda a velocidade, se é que era possível, e olhou para a direção em que a arma era apontada. Dois homens, meio esgualepados, já estavam virados contra a parede de um bar, mãos atrás da cabeça. Um bar de bêbados, onde as pessoas vão para encher a cara depois de um trabalho horroroso, preparando-se para chegar em casa e descontar a frustração na esposa e filhos.

 

Mas os homens não pareciam bêbados. Estavam bem firmes, bem posicionados, já haviam ficado naquela posição antes e nem se mexeram quando os policiais, que agora ela percebeu serem bem jovens, os abordaram ansiosamente, à procura de armas. Só uma faca e uns saquinhos com algo dentro. Os homens foram colocados na parte traseira da viatura.

 

Algum lugar dentro dela vibrou. Foi ao supermercado vibrando, foi para casa vibrando, assistiu televisão vibrando, lavou a louça vibrando e fez o jantar vibrando. Já não era uma qualquer, num lugar comum, dona de uma vida desimportante, porque, durante quinze segundos, foi testemunha de um acontecimento invulgar.

 

Pena não ter levado o celular, poderia ter filmado tudo e para rever depois, já que, talvez, fosse essa a única invulgaridade de sua medíocre vida. Mas pelo menos tinha uma história para contar e contou para vizinha vibrando.

 

A vizinha também vibrou, porque alguém que ela conhecia havia presenciado um fato invulgar, mas não tão invulgar assim, então, quando contou para o marido, colocou os meliantes de joelho.

 

O marido da vizinha também vibrou por causa da conhecida, mas a história não era tão invulgar assim, então, adicionou mais dois meliantes de joelho quando contou a história no grupo de whatsapp do trabalho.

 

E o chefe do marido da vizinha também vibrou porque seu funcionário conhecia alguém que tinha presenciado um fato invulgar, mas não tão invulgar assim, então acrescentou alguns tabletes de maconha encontrados no bar do Zé quando contou a história no grupo de whatsapp da família.

 

E a tia da mulher do chefe do marido da vizinha vibrou porque sua sobrinha conhecia alguém que sabia de alguém que viveu um fato invulgar, mas não tão invulgar assim, então fez o policial puxar o gatilho quando contou a história para sua filha, que trabalhava no jornal.

 

E certo final de tarde de uma sexta-feira qualquer, uma mulher comum deu uma olhada nas notícias da timeline do jornal local:

 

“BANDIDOS ENCONTRAM DESFECHO TRÁGICO NA MÃO DE POLICIAL HERÓI! O bar do seu Zé, nesta cidade, foi invadido por cinco traficantes que eram perseguidos pela polícia. Um dos policiais foi morto, alvejado por um dos foras da lei. O outro, ao dar voz de prisão, também foi ameaçado com armas de alto calibre. Homem experiente, acostumado a lidar com meliantes perigosos, o policial, em ato heróico, puxou o gatilho, ferindo gravemente três meliantes; os outros dois evadiram-se do local. O ocorrido foi testemunhado por dezenas de transeuntes e pelas vítimas antes mantidas como refém e agora libertas pelo heroi”.

 

Desde ontem a mulher comum achou que não viveria mais dias triviais. Enganou-se. Só presenciara um fato menos comum na tarde de uma quinta-feira qualquer. E lamentou-se por não ser uma das transeuntes incomuns que presenciaram algo realmente invulgar.

 

Parou de vibrar e concentrou-se em sua vida desimportante, habituada que estava com a mesmice do cotidiano.

 

 

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