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SER PROFESSOR – Por professor Levy Brandão

Professor Levy Brandão.
Professor Levy Brandão.

 

Faz pouco mais de 15 anos que a docência faz parte da minha vida, não é tanto tempo assim, mas já acúmulo algumas experiências que podem servir de base para pensarmos sobre essa que não é uma simples profissão. São muitos desafios, ainda mais exigências, demanda altos investimentos de esforço, energia, tempo, dedicação e infelizmente não é tão valorizado assim. Na verdade, não seria difícil argumentar ou apresentar evidências para sustentar a ideia de que é até bastante desvalorizada.

 

Quando eu entrei na primeira sala de aula para lecionar e ter contato com uma turma de jovens do ensino médio, da qual passaria a ser “professor” de Filosofia e Sociologia pelos próximos seis meses até que concluíssem essa etapa da Educação Básica (estávamos no meio de um ano letivo), eu tinha na casa de 20 anos de idade, alguns meses de estudante da graduação em Ciências Sociais e praticamente nenhuma compressão técnica e teórica do que efetivamente era a docência, além da ausência de qualquer experiência prática na área. Ao meu favor pesavam o gosto pelo aprender, o desejo de ser professor, a vontade de não falhar (inocência achar que não cometeria deslizes) e a lembrança dos exemplos que tive daqueles que para mim foram excelentes professores e professoras (eu os admirava muito). Acham que essa minha bagagem era adequada, ou suficiente? É claro que não!

 

Logo percebi que “ter certo domínio sobre o conteúdo” a ser trabalhado com a turma era uma parte mínima das minhas atribuições, talvez a menor delas, apesar de já exigir de mim muito e permanente investimento de tempo em pesquisa, leitura e estudo. Vale ressaltar que até hoje estudo sobre Sociologia, matéria que ainda leciono, mas mesmo assim é lúcido admitir que o que sei é infinitamente menor que o que desconheço sobre o vasto universo dessa área do conhecimento. Novas teorias, autores, obras e questões surgem diariamente, sem contar as produções que se fizeram clássicas, que precisam ser revisitadas com alguma frequência, pois a cultura, a sociedade, os saberes e as dinâmicas humanas se atualizam e renovam dia após dia. É certo que para ser professor, antes de mais nada, qualquer pessoas precisa desenvolver certo gosto e manter viva a disposição pelo estudar e pelo aprender sempre.

 

Percebi naquela época que por mais que eu conhecesse de um determinado assunto, isso não bastava para bem trabalhá-lo na sala de aula. Para isso, ainda teria que pensar em como comunicá-lo para os meus estudantes, era preciso saber quais pontos eram os essenciais e não poderiam faltar numa abordagem sobre um determinado tema, que exemplos eu deveria compartilhar, o que eu iria escrever no quadro, se é que faria isso, que materiais eu iria usar para desenrolar os trabalhos e uma série de outras questões que mentalmente eu tinha que responder antes de me aventurar para qualquer “aula”, sem mencionar que os temas das aulas já estavam estabelecidos pelo currículo escolar, independente da minha vontade ou não de trabalhá-los.

 

Hoje já sei que a esse montão de questões que devem ser levantadas e respondidas antes da atuação junto aos estudantes se dá o nome de “plano de aula”, ou seja, se trata do totalmente necessário planejamento. De tão desavisado que eu estava, não tinha a mínima noção do que era isso, até que umas duas semanas depois que eu havia iniciado nessa aventura, a coordenadora da escola me solicitou os planos de aula de todos os encontros que eu teria pela frente. Mais uma coisa sobre a qual eu teria que investigar e descobrir como fazer! Além disso, ela também me apresentou ao diário de classe (a caderneta) e explicou em detalhes como preenchê-lo (trabalho árduo pela frente), entregou-me o calendário escolar anual com as datas comemorativas, festejos, feriados, períodos nos quais eu deveria aplicar as avaliações, essas que precisavam ser disponibilizadas para a análise dela, correção e reprodução para os alunos com a antecedência de dez dias antes da data da aplicação e não poderiam ser feitas de qualquer forma, mas sim seguindo os padrões estabelecidos pela instituição no que diz respeito ao quantitativo de questões, seus tipos, linguagem, níveis de dificuldade e diagramação. Assim eu tomava conhecimento que o trabalho de um professor não começa e nem termina na sala de aula com a aula, mas há sim toda uma gama de outras atividades a serem cumpridas para que a aula aconteça.

 

Nesse mesmo dia falou-me por alto de todo o funcionamento da instituição, procedimentos, regras e me entregou dois calhamaços de papel dizendo que eu deveria lê-los até a próxima semana, para que a partir dali tomasse maior ciência do que era a instituição e do que era ser um professor dela. Eu tinha em mãos o regimento escolar e o projeto político pedagógico da instituição. Só com isso já comecei a me questionar se realmente eu já estava preparado para tudo aquilo. E me veio à mente a percepção de que ser professor também não se trata da mesma coisa sempre, tendo em vista as peculiaridades, demandas, público e realidade de cada local de atuação.

 

Por exemplo, descobri com a leitura de um dos calhamaços que havia recebido que aquela escola na qual eu estava dando os meus primeiros passos enquanto professor tinha formalmente estabelecido o seu propósito educacional, delimitando claramente no documento seu papel social, o tipo de educação que defendia e praticava, sua compreensão de mundo e cidadania, que tipo de indivíduo pretendia formar. Realmente fiquei abismado com tamanha a complexidade do que eu estava me sujeitando a enfrentar. Inocente que era, até então pensava eu que ser professor seria “algo como saber um monte de coisas e falar sobre esse monte de coisas para uma determinada turma”. Ideia essa que rapidamente veio por terra, até porque muitas vezes o professor pode trabalhar um determinado assunto sem ter que ele mesmo ficar horas e mais horas numa exposição oral sobre o tema. Estudando sobre metodologia do ensino vi como pode ser versátil a atuação do professor no processo de promoção do aprender.

 

Eu tive que ler aqueles dois documentos e assim o fiz, a verdade é que me senti ignorante sobre muito do que encontrei ali. Eram várias referências sobre educação, várias teorias mencionadas e até então praticamente nada do que eu tinha estudado, até porque fazia poucos meses que havia iniciado a formação de nível superior, na verdade estar em uma sala de aula naquele momento e sem a qualificação mínima necessária se revelou totalmente precoce, para não dizer temerário. Perante a situação, tomei a autocrítica como necessária e observando aquelas duas desbravadoras semanas de atuação, o quanto as minhas limitações apresentavam-se evidentes, despertei para o fato de que se eu realmente queria ser professor, muito eu tinha que buscar saber e desenvolver. Foi aí que comecei a melhor compreender o porquê de termos que fazer um curso de nível superior (que dura em torno que quatro anos), comecei a refletir sobre a importância das pós-graduações, dos cursos de qualificação, a respeito de como a trajetória é realmente longa. Ficou evidente para mim que o professor é um verdadeiro profissional. Também me questionei sobre quão importante é termos faculdades e universidades que bem capacitam e formam os futuros profissionais, porque os desafios são constantes e muito variados.

 

Até então eu tinha em mim bem nutrido o desejo de ser professor, o que me foi inspirado por excelentes professores que tive ainda jovem, mas praticamente nenhuma compressão da complexidade dessa área de atuação profissional e nem tão pouco da sua responsabilidade. Percebi que além de estudar sobre o que é a educação, suas mais diversas possibilidades, sobre metodologias de ensino, didática, organização do trabalho docente, vi que também precisa ampliar minha compreensão sobre como lidar com pessoas, sobre como liderá-las, sobre como conduzí-las no processo do aprender e dos seus desenvolvimentos. Foram e ainda são leituras e mais leituras na área da Educação, Filosofia, Psicologia, Gestão, Política, Antropologia, além da minha querida Sociologia.

 

Lembro que depois de completados meus primeiros trinta dias de atuação na instituição que me iniciou na atividade de docente, fui convidado a ir na sala da direção para receber o meu pagamento. A responsável financeira da escola explicou para mim que o valor que eu iria receber era o resultado da multiplicação do valor da hora aula pelo número de turmas que eu tinha por 5,25 que representava o númerode semanas trabalhadas (mais um tempo que representa o descanso pago). Lembro que na época o valor da hora aula pago na escola era de R$ 3,74 e que eu tinha 4 turmas somente, com uma hora semanal em cada. Recebi perto de R$ 79,00 (o salário mínimoda época era algo em torno de R$ 350,00). Naquele momento também percebi que além de muito esforço para aprender, estudos e bastante trabalho fora da sala de aula para cumprir com as demandas daquelas minhas quatro turmas, para ter uma remuneração que me permitisse uma vida confortável com essa profissão eu teria que trabalhar ainda mais, muito mais e conseguir muitas outras turmas. Essa, por sinal, é a realidade de muitos professores e muitas professoras, que praticamente passam todos os dias e o dias todos pulando de uma sala de aula para outra na busca de obter uma remuneração que lhes garanta uma vida digna.

 

Mas há quem diga que ser professor é facil. Não, não é simples, não é fácil e exige muito de quem se dispõe a essa profissão. Se me perguntassem se eu me arrependo de ter me dedicado e me profissionalizado na docência, na educação, em ser professor e seguir até hoje nessa área com toda a certeza eu responderia que não. Na verdade eu tenho orgulho de ser professor, por causa do papel que a educação tem para a vida das pessoas e para qualquer sociedade. Mas nesse texto de hoje, tentando mostrar o quão longa é a trajetória de um professor, gostaria de pedir respeito para esses profissionais tão importantes e necessários. Que possamos valorizar, respeitar e reconhecer o papel dos nossos professores e professoras! Salve os professores, as professoras e a Educação!

 

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