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VOLTE PARA A LUZ, CAROLAAINE – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella – escritora e artista plástico

 

A porta era estreita e o toldo estava furado. Ela passou pela abertura e pisou sobre um carpete vermelho, bastante encardido, que ornamentava a entrada. O próximo passo foi sobre piso cerâmico, outrora branco, agora indefinido, e o plec-plec do seus sapatos ecoou por todo o saguão.

 

– Pisar como um gato! – Pensou ela, mas logo desistiu. Dane-se o porteiro gostosão, chamo a atenção. Resolveu não se importar e olhou pra ele com um olhar furtivo. – Ele parece bem ocupado com aquela mocinha – pensou, reparando que o porteiro não era tão gostoso e que mocinha era um eufemismo e um engodo de sua mente para descrever com bondade aquela velharia, exageradamente maquiada, de saia curta, saltos altíssimos, piercing brilhante no umbigo e corpo com cerca de 75% de áreas descobertas.

 

Aquela mulher fez com que, pela primeira vez, prestasse atenção naquele saguão de aspecto antiquado, decorado com papel de parede verde musgo e arabescos dourados. Também reparou pela primeira vez na gente que por ali andava. Uma semi-escuridão encobertava algumas silhuetas suspeitas, dando ao lugar um certo ar de boate.

 

– Eita, que coisa estranha! – e o estranhamento começou a ganhar lugar.

 

Nem deu tempo para refletir, porque o relógio mandou que corresse. Começou a subir rapidamente os degraus inclinados, lisos, plantados num corredor estrategicamente claustrofóbico ornamentado por um corrimão enferrujado e de aspecto grudento. E enquanto subia os degraus, um cheiro fétido, de odores corporais que se misturavam, subiu por suas narinas.

 

– Credo! – Um perigo mesmo, tanto aquele ar, como o corrimão e os degraus. Pela primeira vez não entendeu porque um prédio comercial de sete andares não possuía elevador. Enquanto subia até o quinto andar, ela procurou se equilibrar porque só meio pé ficava apoiado no degrau. Lá pelas tantas, quase caiu e precisou segurar o corrimão gosmento. – Eca, não dá! – Tirou rápido a mão e limpou na roupa. Então resolveu subir os degraus pisando de lado, como um caranguejo. Isso também era estranho.

 

No quinto andar, uma grosseira e suja porta bloqueava a entrada. Ela a empurrou com o cotovelo e não pode evitar o pensamento:

 

– Que muquifo!

 

Adentrou a recepção da clinica, completamente esbaforida. Abanou-se por alguns segundos, procurando ar puro pra respirar. Acalmou-se, ali dentro cheirava melhor. Um pouco melhor.

 

E ainda faltavam cinco minutos. Ainda bem.

 

Tentou recompor-se, fazendo de conta não perceber o próprio rímel borrado e o cabelo que parecia ter sido exposto ao furacão Katrina.

 

Laralaralá…

 

Uma música sem graça, com notas repetitivas e atonais estava tocando. Era estranha, sem expressão. Não era algo que ela escolheria ouvir. Não era bom de ouvir.

 

A secretária levantou a cabeça de sua pretensa leitura, uma revista feminina bem chumbrega. Mesmo sendo um ser quase cego, conseguiu ler de longe a manchete escrita em letras vermelhas garrafais:

Se sentiu escandalizada pela primeira vez. Século 21, minha filha. Vida pós-pandemia. E ainda tinha gente que se preocupava com isso? Tinha gente que sim…

 

Laralaraláááá…

 

Olhando bem para a secretária – reparou que nunca tinha reparado bem – teve um acesso de riso que controlou heroicamente: a secretária procurava manter uma posição taticamente sensual atrás da mesa, mas sua cafonice havia sido rapidamente delatada. O óculos de armadura de oncinha combinava com a blusa cheia de babados do mesmo padrão. Ostentava na enorme cabeleira amarelada um permanente a la anos 80. A calça de couro preta fazia dobradinha com um sapato plataforma horrorosamente vermelho.

 

A secretária olhou para ela, abaixando os óculos felinos até a ponta do nariz, fazendo um sinal com o indicador entupido de anéis e balançando as 284 pulseiras douradas de bijuteria barata.

– Que clichê! – pensou , obedecendo prontamente ao sinal para sentar-se.

 

Deixou-se ficar e pela primeira vez reparou que a sala de espera era escura e tinha o mesmo ar de velharia sem glamour que a secretária e o resto do prédio: o sofá era de um falso couro marrom, já rasgado em alguns lugares; as paredes estavam meio amareladas e com a tinta descascando. Embaixo brotava um tom de azul senil, meio acinzentado, meio embolorado.

 

– Estranho eu nunca ter notado isso – ela pensou, retorcendo o nariz. O nojo guardado subiu pela sua garganta e ela fez esforço para não ceder a ânsia de vômito que se alojou em seu estômago.

 

Lalalaralá…

 

Sentiu que os olhos da secretária a observavam. Devo ser uma novidade melhor que a revista ultrajante que ela tem na mão, pensou. Em outro tempo, olharia firme pra secretária, e soltaria: “Tá olhando o que?” Mas hoje não.

 

Desviou os olhos e os fixou no piso. O chão era de tábuas de madeira, tortas e riscadas, da mesma cor do sofá, com vãos enormes repletos de sujeira. Ela nem imaginava que isso ainda existia. Tantas vezes ali e nunca tinha reparado.

 

O resto da mobília seguia o mesmo padrão caquético. Sobre ela, uma fina camada de pó completava o cenário que cheirava naftalina em uma caixa fechada esperando para protagonizar, junto com a secretária, um filme de terror. Classe B. Dos anos 80.

 

Agitou-se. Notou que estava muito desconfortável naquele lugar.

 

Laralááá….

 

Tic-tac.

 

Na parede havia um relógio de corda. Ela espantou-se porque a secretária havia colocado um chiclete na boca antes de levantar e dar corda no relógio. Ploc. Estouraram uma bola de chiclete que agora mascava de boca aberta. Aquilo era realmente estranho.

 

Olhou um pouco para o relógio e a sensação de estranhamento aumentou.

Por alguns instantes, pairou sobre toda aquela realidade tosca que se desenrolava em sua volta. Tudo aquilo era muito comum, estivera muitas vezes ali, mas nunca experimentara nenhum daqueles estímulos.

 

Um monte de primeiras bizarras vezes.

 

E se fosse louca? E se tudo aquilo fosse um produto de sua mente, um delírio, uma alucinação, uma fantasia? E se fosse o delírio de alguém?

 

A secretária foi bambeando desajeitada até a mesa por conta da plataforma horrivelmente vermelha e sentou-se na ponta da cadeira, cotovelos apoiados na mesa, coluna encurvada e nádegas descarneadas projetadas pra fora. Um esforço inútil para manter a pretensa sensualidade. Em seguida tirou o chiclete da boca e o segurou entre os dedos, fazendo uma bolinha.

 

Laralá…

 

Agora nem estava nesse mundo, estava fora do corpo. A realidade pareceu intangível. Ficou bem quieta e começou a tamborilar os dedos na perna, acompanhando o tictac-tictac-tictac do relógio.

 

– Moça! Moooçaaa!

 

Uma voz em seus ouvidos, primeiro como se estivesse muito longe… mas rapidamente se tornou um grito desesperado. Era a voz estridente e anasalada da secretária que chegou num exagero de decibéis, puxando-a de volta e quase rompendo seus tímpanos. Ela não havia notado isso também.

– Volte para luz, Carolaaine! – A secretária riu o mais tosco de todos os risos. Seu corpo agitava-se enquanto ela procurava ar, produzindo barulhos parecidos com o grunido de um porco.

 

Quatro horas em ponto, o relógio disse.

 

Levantou-se e foi até a mesa da secretária. Retirou a carteira da bolsa e esperou.

 

– São quatrocentos e cinquenta reais – a secretária havia abaixado a voz e desviado os olhos dessa vez. Era do tipo que sentia vergonha enquanto esfaqueava a vítima.

 

Pagou.

 

Laralalaáá…

 

– Meu Deus, como vim parar aqui? – perguntou a si mesma, reparando no disparate de tudo aquilo pela primeira vez.

 

Mas estava ali. E a porta do consultório do psicanalista acabara de abrir.

 

Publicado anteriormente em www.cronicadodia.com.br

 

 

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