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As lições da Floresta (e que lições!) – Por Antonio Sampaio Dória

Professor Antônio Sampaio Dória
Professor Antônio Sampaio Dória

O livro A Professora da Floresta e a Grande Serpente é colombiano, mas poderia bem ser brasileiro — afinal, a história se passa na Amazônia. Aliás, a autora, Irene Vasco, é filha de brasileira. Nessa boa edição da editora Pulo do Gato, podemos sem exagero nenhum nos deliciar com as imagens de Juan Palomino, de grande beleza e impacto.

A história: uma professora, depois de se formar, recebe a primeira incumbência: dar aula em um pequeno povoado da Amazônia, Delícias. Fiel à sua vocação, ela aceita o desafio. A viagem é longuíssima, envolve ônibus, barco e moto, mas, depois de quatro dias intensos, ela chega lá.  Era um vilarejo de apenas 50 famílias indígenas, à beira de um grande rio. Os mais velhos falavam uma língua que a professora não entendia.

A escola, por sua vez, era apenas um telhado de palha com cadeiras por baixo. A lousa, apoiada num tronco. E a professora logo encontrou um lugar para guardar seus preciosos livros. Ela lia histórias dos livros para as crianças, que adoravam, e podiam levá-los (os livros) para casa.

 Certa manhã, as crianças chegaram assustadas à escola. “Professora, a grande serpente está despertando! Ela é perigosa e a escola fica muito próxima ao rio”. A chuva já estava começando, e as crianças fugiram.

“Não há serpentes gigantes, vocês não precisam fugir, tudo isso não passa de lenda. Fiquem, por favor!” reagiu a professora.

Mas a chuva, os trovões e relâmpagos vieram, e a professora também foi obrigada a subir às terras altas. O céu escurecia e ela sentiu medo. No topo da colina, encontrou todos os habitantes.

Um assombro coletivo fez com que todos olhassem para baixo. O rio transbordava, caudaloso, transformado em grande serpente de lama. Tudo, até a escola, desapareceu sob as águas e o lamaçal. A professora ficou desesperada para salvar seus livros, mas ninguém lhe deu atenção.

Sem saber como agir, a professora viu, no dia seguinte, que algumas mulheres, ajudadas pelas crianças, bordavam livros de pano. E, à noite, à espera de que a chuva passasse, as mulheres começaram a  narrar suas histórias e lendas, com os livros. As crianças traduziam para ela o que não entendia. Onças, espíritos da floresta, pássaros, caciques, princesas eram os personagens das histórias.

Depois da enchente, a escola foi reconstruída, de forma mais sólida. E havia um lugar para os livros de tecido, que se multiplicavam.

“Desde então, as aulas mais importantes eram as das lendas”. As mães e avós iam à escola para contar as lendas. Assim, a professora aprendeu a língua da comunidade. E também aprendeu a fazer livros de pano.

Essa história ilustra com perfeição uma das ideias de Paulo Freire: o professor não é aquele que apenas “dá” o conhecimento, mas alguém que ajuda a despertar o conhecimento, a cultura que as pessoas já têm.  Sem o respeito e interesse pela cultura do outro, a escola é unilateral e autoritária – uma mera instância de poderes maiores.

Nessa bela história, quem mais aprende é a professora. Mas quantos professores estão de fato dispostos a aprender, e dizer isso a seus alunos? É uma parábola sobre algo maior, incluindo aí uma discussão sobre o poder.

E como se isso não bastasse, há também ilustrações belíssimas, que traduzem o conhecimento diferenciado — pouco cartesiano — dos povos da floresta amazônica.

A Professora da Floresta e a Grande Serpente, de Irene Vasco e Juan Palomino. Tradução de Márcia Leite. Editora Pulo do Gato.

Para crianças a partir de 6 anos.

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