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Bolsonaro diz que o PL não pode flertar com a esquerda

Por Felipe Frazão e Lauriberto Pompeu, fonte: O Estado de S.Paulo

Bolsonaro em Dubai

 

DUBAI E BRASÍLIA – Um dia depois de suspender a cerimônia de filiação ao Partido Liberal (PL), o presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira, 15, que existe a possibilidade de ingressar em outro partido do Centrão. Bolsonaro relatou manter ainda conversas paralelas e que segue vivo o interesse do Progressistas e do Republicanos em filiá-lo. O presidente indicou estar disposto a esperar “pouquíssimas semanas” para concluir as negociações com o PL, comandado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto.

 

“Eu tenho um limite. Espero, em pouquíssimas semanas, duas ou três no máximo, casar ou desfazer o noivado. Mas acho que tem tudo para a gente se casar e ser feliz”, disse o presidente, durante entrevista na Expo Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

 

Segundo Bolsonaro, a conclusão das conversas somente irá adiante se o PL desistir de apoiar partidos de adversários políticos dele, principalmente na esquerda, e de participar de palanques estaduais que possam beneficiar rivais como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e João Doria (PSDB).

 

“Nosso partido não pode estar flertando com a esquerda num ou outro Estado, se resolvermos isso aí eu assino essa filiação que me satisfaz e satisfaz em grande parte o nosso eleitorado, que quer a continuidade da minha política”, afirmou o presidente.

 

O presidente tem um time de conselheiros para tratar da filiação. Ele afirmou ter conversado nos últimos dias sobre a escolha do partido com os ministros da Casa Civil, Ciro Nogueira (Progressistas), das Comunicações, Fábio Faria (PSD), e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho (sem partido).

 

O clã Bolsonaro se desentendeu com o mandachuva do PL por causa das composições políticas em São Paulo, Bahia, Pernambuco e Piauí. Na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, a ideia do Planalto é forçar o PL a desfazer o acordo para apoiar a virtual candidatura do vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB).

 

“Tem alguns Estados que para mim, a possível reeleição, se eu vier candidato, são vitais, como São Paulo. Ele (Valdemar) tem um compromisso com um candidato que vai apoiar o atual governador (Doria) se ele tiver o espaço lá no partido dele (para concorrer a presidente).”

 

O PL ainda não decidiu como vai atender as solicitações de Bolsonaro, mas ainda trabalha em ajustar um acordo. O presidente do partido pediu um tempo para Bolsonaro para poder administrar internamente a questão. Uma reunião com a participação do comando da legenda e das bancadas na Câmara e no Senado está marcada para acontecer amanhã, 17, na sede do PL em Brasília.

 

Integrantes do partido avaliam que um acordo só vai efetivamente começar a ser desenhado após uma conversa cara a cara entre Bolsonaro e Valdemar. O chefe do Poder Executivo volta ao Brasil na quinta-feira, 18.

 

Em relação ao palanque em São Paulo, as prévias presidenciais do PSDB também pesam na decisão do PL. A definição da candidatura tucana ao Palácio do Planalto está marcada para acontecer no dia 21 e é citada como um dos motivos para que a cerimônia de filiação, antes marcada para o dia 22, fosse adiada.

 

Os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS) disputam a preferência dos tucanos para as eleições de 2022. Se Doria for escolhido, Garcia se torna o candidato natural do PSDB ao governo paulista, o que dificulta um acordo entre Bolsonaro e Valdemar. Já se Leite for definido pré-candidato a presidente, o PL vê mais possibilidade de arranjar motivos para romper com o PSDB, já que haveria uma indefinição sobre a candidatura tucana no Estado.

 

No Nordeste, o PL também tem alianças que esbarram nos planos de Bolsonaro. No Piauí, o partido está aliado ao governador Wellington Dias (PT). Na Bahia, embora o PL planeje se aliar a ACM Neto (DEM) para o governo estadual, há ainda uma ala do partido que mantém proximidade com o governador Rui Costa (PT).

 

Já em Pernambuco, o prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira (PL), tem um compromisso firmado com a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra (PSDB), para comporem uma chapa na eleição para o governo estadual. Isso inviabiliza os planos eleitorais do ministro do Turismo, Gilson Machado, que é citado por Bolsonaro como candidato ao governo ou ao Senado no Estado. Integrantes do PL rejeitam o ministro para a eleição majoritária e sugerem o nome dele para deputado federal.

 

Tanto no caso Piauí, quanto em Pernambuco, Costa Neto emitiu comunicados oficiais na semana passada garantindo a autonomia dos diretórios.

 

Bolsonaro disse que vai precisar lançar candidatos em quase todos os Estados, em especial São Paulo, por causa do eleitorado de 30 milhões de pessoas. “É isso que está pegando. Valdemar é uma pessoa de palavra. Ele disse que está buscando a negociação e não conseguiu ainda a garantia de que possa desfazer o que fez no passado. Então resolvemos simplesmente adiar (a cerimônia de filiação, antes prevista para 22 de novembro)”, justificou.

 

Bolsonaro disse que não considera ter voltado atrás porque, em sua perspectiva, “na política as coisas só acontecem quando você assina”. “Eu falei que estava 99% acertado”, argumentou.

 

O presidente voltou a dizer que ele e Valdemar devem estar afinados e que ambos devem falar abertamente dos compromissos firmados, sem pendências. “Tem tudo para dar certo. Depende do Valdemar com sua habilidade que todo mundo conhece conduzir esses acordos que fez no passado. Ele nunca desonrou a palavra dele. Nós temos isso aí num alto valor”, reconheceu o presidente.

 

Ele também afirma que será capaz de formar uma bancada na Câmara com cerca de 90 integrantes, impactando partidos do Centrão. “Eu acertando um partido bem ajustadinho, com certeza uns 30 do então PSL virão, se for o PL. Vem gente do antigo DEM também. A gente pode chegar a uns 90 parlamentares com propósito de tocar o Brasil e votar matérias importantes. Temos dificuldade nas aprovações”, disse.

Tarcísio pode ser candidato ao governo de São Paulo

 

O presidente também disse ter conversado com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e que ele aceitou discutir uma possível candidatura ao governo de São Paulo. Em público, o ministro tem desconversado sobre o tema, mas em particular já admite aceitar o pedido de Bolsonaro.

 

“Eu tenho um sentimento: se ele vier candidato, tem tudo para levar. Podem falar que ele não é paulista. Eu fui eleito pelo Rio sem ser carioca. Ele é um tocador de obras, um gestor, conhece muito do Brasil e tem como rapidamente se inteirar do que acontece em São Paulo”, disse o presidente.

 

Segundo o deputado José Rocha (PL-BA), que já foi líder do partido e vice-líder do governo, não existe rompimento de Bolsonaro com o partido e ainda há chance de haver acordo para a filiação. “O Valdemar disse que está tudo acertado, combinado, que vamos nos sentar, conversar. Não ficou nada estremecido, não”, afirmou.

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