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Maior Centro de Artes Figurativas das Américas está ficando sem barro

Alto do Moura - barro

Artesãos do Alto do Moura estão correndo o risco de ficar sem a sua mais importante matéria prima para trabalhar – o barro.

O barro no Alto do Moura, retirado das margens do Rio Ipojuca, um dos mais poluídos do país, já não tem mais a mesma qualidade dos tempos do Mestre. Não são apenas os artesãos que fazem uso dele. As cerâmicas e olarias, empresas que fabricam tijolos e telhas, também fazem extração das jazidas locais para a produção civil, deixando crateras nas proximidades do rio. O barro que sobra, contam os artesãos, contém mais impurezas, o que torna as suas criações mais quebradiças e frágeis, prejudicando o trabalho e, principalmente, as vendas.

Para tentar enfrentar a concorrência dos fabricantes de telha pelo barro do Ipojuca, os artesãos contam com a Abmam, único movimento coletivo do bairro. A Abmam é um marco histórico dentro da localidade, que conseguiu inúmeros benefícios e direitos para seus associados e par ao bairro. Atualmente, a associação mantém um terreno regulamentado com barro destinado aos artesãos, mas estima que a jazida deve durar no máximo mais cinco anos.

Foi justamente para lidar com a questão da escassez do barro que os trabalhadores do bairro criaram a Associação de Moradores e Artesãos do Alto do Moura, em 1984. O primeiro presidente, Manoel Antônio, hoje com 89 anos, conta que trabalhou para conquistar a primeira jazida, em Barra de Taquara, para a utilização do barro pelos artesãos. Segundo ele, esse primeiro terreno durou entre oito e dez anos, acabando rapidamente. Logo em seguida, a associação conseguiu outro. Também artesão, Manoel construiu sua casa e a de seus filhos com o dinheiro da venda de suas peças. Hoje, parte de sua família trabalha com o barro, tirando seu sustento dali.

A Abmam afirma ter encontrado um terreno com uma jazida que poderia manter as atividades do bairro funcionando, localizado a cerca de dois quilômetros do centro da comunidade, na zona rural. A Associação tem participado de conversas com a Prefeitura de Caruaru e o Governo de Pernambuco sobre a aquisição do terreno para a comunidade. Em março de 2021, o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, José Bertotti, e a deputada estadual Laura Gomes (PSB), visitaram Alto do Moura para falar sobre a escassez do barro. Até agora, porém, nada disso resultou em anúncios concretos.

Alto do Moura - barro - pés

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade e a Secretaria de Cultura afirmaram que criaram um grupo de trabalho em conjunto para “para analisar a possibilidade de aquisição de um novo terreno pelo governo do Estado para ceder à Associação do Auto do Moura”. Atualmente, segundo as secretarias, o grupo de trabalho aguarda o relatório de um estudo geológico feito pela CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), que em setembro fez uma visita técnica à área indicada pela Associação. Em nota, a Secretaria de Cultura afirma que “está empenhada e atenta às demandas do Alto do Moura”.

Já a Prefeitura de Caruaru, através de sua Fundação de Cultura, informou que “o Município está ciente da situação, inclusive, representantes da Prefeitura de Caruaru já se reuniram algumas vezes com artesãos do Alto do Moura, tendo como pauta o problema apontado”. A Fundação também afirmou que está analisando o material colhido, a qualidade do barro e a capacidade de extração da matéria-prima antes de iniciar as tratativas para desapropriação do terreno.

Sem uma solução à vista, o Maior Centro de Artes Figurativas das Américas aguarda, temendo o fim do barro que Mestre Vitalino já havia aventado. “Se a gente ficar sem o nosso barro, a gente para de trabalhar”, explica a veterana artesã Nicinha. Sem o barro, não há artesãos, não há Alto do Moura: “Tudo depende do barro. É a nossa matéria-prima”. Continue lendo>>>

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