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PEQUENO CONTO ANTI-CONTAS – Por Nádia Coldebella

Nádia Coldebella
Nádia Coldebella – escritora e artista plástico

O marido sentou na cadeira da cozinha, peito estufado, cotovelos na mesa, caneta e papel na mão. Munido da Calculadora Mística das Contas Malditas, era o orgulhoso Mestre dos Mestres, Senhor de toda a Contabilidade Doméstica.

As crianças bem que tentaram falar uma coisa aqui e outra ali, mas a indignação da voz e o ódio no olhar deixou todo mundo quieto.

– Não ousem interromper meu ritual calculístico anual e sagrado!

Até o cachorro recolheu-se em sua canina insignificância.

– Diga-me serviçal, como ousarás gastar meu precioso ouro esse ano?

Não foi isso que ele disse, mas foi isso que ela ouviu. Serviçal escravizada, isso sim, porque da boca daquele Senhor da Profunda Arrogância só saia a lista das pérfidas reclamações mundanas. Nunca saia um obrigada pela comida feita, roupa lavada, casa limpa, criança feliz, dinheiro extra na conta, cachorro saudável. Nada, porque qualquer gratidão expressa devia custar muito do ouro acumulado.

Calma, pensou, imaginando uma luz branca e etérea sobre sua cabeça. Sou uma nobre fada élfica. Então fez pra ele uma rápida lista mágica dos custos que teriam no ano, tim-tim por tim-tim.

O corpo do Grande Mestre dos Números Caseiros envergou-se sobre a máquina maléfica. Tic-tic, clec-clec, tac-tac. A monstra tinha vida própria e começou a vociferar números negativamente mal-intencionados que selariam o futuro financeiro mensal daquela família.

E então, sob a luz mística e vermelha do sinal de igual, A Execrável despejou sua poderosa maldição em forma de números, inomináveis e incompreensíveis para um pobre mortal que só quer ter suas contas em dia.

– Tu estás lascada, ó escrava élfica! – Não foi isso que ele disse, mas foi isso o que ela ouviu. Estavam no vermelho, sem dim-dim, no fiofó do urubu e a culpa era dela. Dois anos sem comprar roupa, sem viajar, sem sair, só acordando pra trabalhar e pagar boleto. E aí, a Maldita dos Números diz pro Grande Contador do Lar que a culpa era da pobre e devota serviçal.

Mas eis que urge o tempo da vingança. A pobre serviçal, fada élfica poderosa e escravizada, juntou os punhos e concentrou toda a sua vontade, canalizando-a para as mãos espalmadas, esperando que a onda de energia ali se fizesse viva, numa grande bola de luz, que miraria direto para a máquina endemoniada:

– Hadouken!

Nada.

– Hadouken!

Nada.

– Hadouken, Hadouken!

Nada mais nada, igual a nada.

Hadouken, Hadouken!

Humilhada, a fada élfica desprovida de poderes sentou-se ao lado do cachorro, curvando-se diante da sua infinita insignificância também, enquanto o Mago Sinistro dos Cálculos Adversos, Senhor Marido, ali a sua frente, olhava para ela como se ela fosse louca.

Ele voltou-se para A Execrável e apertou mais uns números. Depois, envolvido pela aura mística que precede as sentenças, declarou:

– Os excessos do ouro são desperdiçados com a alimentação da ralé do castelo – Não foi bem isso que ele disse, mas foi isso que ela ouviu. A culpa do gasto era dela, a ralé. A alimentação era a comida, a bebida, a roupa, o produto de limpeza, era tudo.

Ela vociferou palavras de poder para si mesma. Ele que plantasse, colhesse, preparasse, costurasse a própria roupa, fabricasse o sabão, parasse de comer e, por consequência, deixasse de usar o santuário do pensamento. Não daria descarga e não gastaria água.

A desgraça do Hadouken não funcionava, mas seu cérebro místico já havia bolado um plano.

Ela poderia fazer As Contas Malditas. Anotar Os Gastos Obtusos. Assumir o controle. Ser a Mestra Branca da Torre Luminosa, submeter o Mago Sinistro e tornar-se a Feiticeira Inominável do Infinito Poder. Ela poderia controlar A Execrável e transformá-la na Benção Maquinal dos Números Profícuos sempre Positivos. Abençoaria aquele castelo com a sua Inoxidável Sabedoria. E então executaria o Hadouken azul e seria a Senhora do Insondável.

Sim, ela poderia, mas, ao invés disso, foi até a sala levar a cerveja do Marido, Mestre e Senhor. E depois, zangada, sentou-se ao lado dele.

Por fim, subjugada pela Insustentável Vítima Que Sou, começou a passar automaticamente a timeline do facebook para sufocar a Imprescrutável Tristeza que insistia em dar as caras.

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